Governo Bolsonaro e a Falsificação da História


22 de Fevereiro de 2019

Emerson Bellini Lefcadito de Souza

 

 

“Uma mentira repetida mil vezes

Torna-se verdade”

(Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista).

 

 

Caro(a) leitor(a), permita-me, através desse texto, dialogar com você sobre um elemento que ainda não vem sendo muito tratado – ressalva: a conjuntura tão dinâmica, de fato, impede-nos de abordar sobre “todas” as questões e possíveis consequências do governo que se iniciou em 1º de janeiro/2019 – no âmbito da esquerda socialista e, por hora também, tão pouco por parte de muitos(as) historiadores(as): as ações da cúpula do governo em falsificar, forjar períodos e fatos históricos que marcaram profundamente o Brasil. Mas, atenção! Esta ação não é fruto, apenas, da ignorância intelectual da cúpula que compõem o governo, mesmo que em alguns casos acabe por atestá-la, a exemplo da fala do Ministro do Meio Ambiente – Ricardo Salles –, em entrevista ao Roda Viva, em que não tecia argumentos mínimos tão poucos plausíveis ao afirmar sobre a não importância de Chico Mendes, líder sindical e ambientalista, guerreiro que lutava pela defesa dos trabalhadores extrativistas e da preservação da floresta amazônica e dos povos da floresta1.

Esta ação, a de falsear e forjar a história, é um projeto! Um projeto que se soma aos planos que buscará impor goela abaixo os ataques à classe trabalhadora e ao povo pobre desse país, acordados em campanha eleitoral com a burguesia. É preciso ter clareza que, ao contrário do que certos núcleos de esquerda dizem, as classes dominantes brasileiras aprendem com a história. Elas têm intelectuais qualificados que elaboram projetos a partir do conhecimento da nossa história. Da mesma forma em que sempre foram extremamente hábeis e capazes em elaborarem projetos que levam a exclusão do povo da participação política nas instâncias decisórias do poder.

Assusta (ou não?) um pouco iniciar um texto para uma Organização Marxista e Revolucionária com uma frase sabendo, principalmente, as ações decorrentes dela, que impulsionaram um dos regimes políticos mais deploráveis da história da humanidade – o nazismo –, não é mesmo? Confesso que a mim sim. E confesso também, caro(a) leitor(a) que fiquei em dúvida em mantê-la ou substituí-la por uma frase inicial que expressasse caráter socialista e revolucionário. Aquelas frases tão presentes e necessárias atualmente, de guerreiras e guerreiros que nos antecederam, em que muitos e muitas deram a vida pela luta por uma sociedade mais justa e fraterna, só possível no socialismo. Aquelas frases que nos instigam, nos motivam a nos mantermos nas trincheiras da incansável luta contra todos os ataques do Capital. Entretanto, resolvi mantê-la. E por quê? Porque ela atualmente é a exemplificação do que vivemos na atual conjuntura. Mais ainda, atualmente, quer queiramos ou não, a referida frase é um dos elementos norteadores do bolsonarismo.

Comprometido com o socialismo e com a emancipação da classe trabalhadora de conjunto do jugo do capital, o que pressupõe o fim de sua exploração pela classe dominante, é dever dos socialistas provocar e buscar fornecer para a classe trabalhadora instrumentos a ajudem trilhar o necessário caminho da reflexão e dos impactos das ações que estão por detrás de mentiras diuturnas utilizadas para confundir e ludibriar trabalhadoras e trabalhadores país afora. É também imprescindível refletir sobre como o atual governo de Jair Bolsonaro vem trabalhando para desvirtuar a história, ação que se soma aos planos de impor goela abaixo os ataques acordados em campanha com a burguesia. E a reflexão, por sua vez, soma-se ao fortalecimento na construção da resistência nas ruas, locais de trabalho, nas escolas, nos bairros, enfim, em todos os espaços em que a luta se fará necessária.

A frase em questão é de Joseph Goebbels, que foi ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista, cujo papel era o de exercer severo controle sobre as instituições educacionais e os meios de comunicação. Apesar das diferenças por se tratarem de momentos históricos distintos, o fascismo europeu do século XX tem características centrais presentes no discurso de Jair Bolsonaro: está relacionado com intolerância a qualquer forma de acordo, com a defesa da manutenção das hierarquias sociais, com a utilização de uma revolta social para manter as estruturas vigentes e com uma exaltação da violência aberta como forma de resolver os conflitos.

Não obstante, há um movimento tático claro e que têm sido uma das tônicas do governo Bolsonaro: forjar a história. A tática em falsear toda uma campanha eleitoral alicerçada em proliferação de notícias falsas (as chamadas fake news) via redes sociais – Facebook e Whatsapp – e patrocinadas por grandes empresários do país, prossegue a todo vapor no início deste governo. Agora, com uma tônica um pouco diferente, entretanto, não menos deplorável: o atual governo insiste, diariamente, em falsear os acontecimentos históricos que marcaram o país.

Ao voltar nosso olhar rapidamente à História, é possível identificar que na Alemanha, em 1933, os capitalistas optaram pela entrega do poder a Hitler, através do patrocínio financeiro e da articulação de sua campanha, além de traçarem uma estratégia retórica que buscava extrair da insatisfação de vários segmentos sociais elementos para insuflar um ardente nacionalismo entre o povo.

O nazismo nunca teria chegado tão longe sem a liderança carismática de Hitler, um sujeito que hipnotizava multidões em seus comícios e tinha um poder de convencimento difícil de ser igualado, uma figura que no palanque encarnava o mito do ‘corpo’ da Alemanha, cujo sistema circulatório era a massa que o aplaudia com devoção. Mas caro(a) leitor(a), se por um lado estes elementos foram cruciais para atribuir um caráter messiânico à Hitler, elementos muito bem explorados por seu ministro de Propaganda, Joseph Goebbels, que controlava os meios de comunicação alemães, por outro a estreita colaboração de industriais e banqueiros com os nazistas foram cruciais para perseguir e destruir o sindicalismo e os socialistas, a quem chamavam de “terroristas” (qualquer coincidência com o Brasil de hoje é mera semelhança?). Detalhe: Hitler extinguiu o Partido Comunista alemão um dia depois de tomar posse.

Isso quer dizer, caro(a) leitor(a), que o grande capital internacionalizado esteve nas tratativas, seja nos bastidores ou abertamente, para entregar o poder à Hitler em 1933, assim como esteve intimamente atuante para entregar à Bolsonaro em 2018 e da mesma forma que o fez com Hitler, através do processo eleitoral, buscando, da mesma forma também, extrair da grande insatisfação de numerosos setores sociais com o atual sistema político brasileiro elementos que atribuíssem a Jair Bolsonaro a figura de um mito. Todavia, com outras formas. Anita Leocádia Prestes, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em seu texto de 17 de outubro de 2018, intitulado “A ameaça fascista no Brasil”, exemplifica:

“Num país como o Brasil, onde inexiste tradição partidária, isso pode acontecer sem partido fascista, sem uniformes fascistas e sem a mística fascista dos anos 1930, sem expansionismo militar declarado e sem racismo explicito. As formas são outras, mais elaboradas, com a utilização em larga escala dos meios fornecidos pela informática, mantendo sempre o discurso anticomunista e propagando a violência contra todos que se opõem aos seus objetivos, inclusive por meio da ação de hordas fascistas. Vale lembrar como exemplo desse emprego “moderno” da informática a colaboração com a campanha de Bolsonaro de Steve Bannon, estrategista de Donald Trump e especialista em desinformação” (https://pcb.org.br/portal2/21117/a-ameaca-fascista-no-brasil/).

A exemplificação tácita, lúcida, de Anita Leocádia Prestes sobre as formas mais modernas de empregar a desinformação para confundir e angariar mentes é que motiva esse texto a dar ênfase a um tentáculo, a uma caracterização do governo Bolsonaro que é a de um movimento tático utilizado propositalmente: o de buscar falsear importantes acontecimentos históricos. Entretanto, para compreendermos melhor as reais intenções do governo Bolsonaro em buscar forjar a história é preciso, primeiramente, expor algumas de suas táticas que corroboram para este feito: o de regorjear mentiras, desinformação e cinismo.

Jorro de mentiras como tática

Caro(a) leitor(a), todos(as) recordam a tática utilizada por Bolsonaro e seu partido, o PSL, durante a campanha eleitoral que, aliás, se assemelha muito à usada por Trump:

  • o de se apresentar como alguém que fala como as coisas são ao mesmo tempo em que promete desmontar um sistema político disfuncional e procura cativar muitos cidadãos que têm medo de perder seu lugar em uma sociedade cada vez mais diversa e inclusiva. Para tanto, se vendeu ao seu eleitorado e aos que estavam em dúvidas ou descontentes em relação ao PT, como “o homem que não tem medo dizer o que todos estariam pensando”. Isto é, como alguém que vai contra o “politicamente correto”, como quando ele disse a uma plateia que teve uma filha “em uma fraquejada” depois de quatro filhos homens;
  • o de atacar as grandes mídias (com exceção da Record, do Bispo Macedo, ambos seus vassalos eleitorais), acusando-as de tudo, inclusive de tentarem sabotar sua campanha justamente por ele não ter “compromisso com partidos”, mas com o país (o que se provou falacioso, considerando a composição do atual governo, cujos ministérios foram barganhados principalmente com o DEM);
  • uso prioritário das mídias sociais, em especial o Facebook e Whatsapp, para se comunicar diretamente aos seus eleitores. Instrumentos utilizados com mais intensidade após o episódio da suposta facada. Quem não se lembra dos dizeres de seus eleitores nas mídias sociais: “descansa capitão, e deixe a campanha coma gente”; além disso, alguém se recorda da presença de Bolsonaro nos debates propostos pelas emissoras? Não foi aos debates alegando questões de saúde, mas cedia entrevista de 10 minutos à emissora do bispo Edir Macedo, que coisa, não?
  • o de insinuar a possibilidade de fraude eleitoral nas urnas eletrônicas, a mando, sobretudo do PT, caso o resultado das eleições não o elegesse, num súbito e claro recado: legitimidade existe somente se eu ganhar;
  • uso de representantes para falar em seu nome, a exemplo de seus filhos (filhos? Alô Queiroz, onde está você meu filho?), através de vídeos compartilhados via mídias sociais. Ora, se alguém fala por mim eu tenho o “argumento” em dizer: “eu nunca disse isso”.

Soma-se a essas ações, a tática de comunicação utilizada por Bolsonaro e seu clã conhecida como “firehosing”, de “firehose” (mangueira de incêndio), que consiste em bombardeio constante de informações, sem nenhum compromisso com a verdade, ou seja, MENTIRAS, de modo a criar um quadro confuso, um jorro imenso e sufocante (daí a analogia com a mangueira de incêndio) demandando respostas e esclarecimentos.

Bolsonaro, o PSL e seus marqueteiros sabem que as fake news geram desinformação e desorientação. Financiado por grande parte do empresariado do país, teve contratada uma agência especializada em proliferar notícias falsas ao custo de 12 milhões, não declarados ao Tribunal Superior eleitoral, o que configura escandalosamente esquema de caixa 2. Entretanto, aos olhos turvos e propositalmente cegos de nosso Judiciário, tal ação é tida mais como um descuido eleitoral do que crime eleitoral.

Com este aval classista do Judiciário burguês, o governo Bolsonaro prossegue num sistema de comunicação desenvolvido pelo então presidente do país depois que ele deixou o papel de pedra para assumir o lugar da vidraça: reage muito mal, sem aceitar nenhum tipo de crítica à “narrativa” construída por seus discursos toscos e por meio das redes sociais. Essas falsidades – ou declarações feitas com o único objetivo de chocar –, por mais absurdas que sejam, acabam por se tornar temas centrais no debate, enquanto os assuntos relevantes são implementados em segundo plano pelos bolsonaristas.

Por isso, não importa se uma coisa dita ontem é desmentida hoje, proferida novamente e negada de novo. Desqualificar qualquer informação dos meios tradicionais ou de qualquer outra fonte que não parta do interior da seita é essencial nessa estratégia. Ataques em massa contra qualquer voz divergente, criar inimigos imaginários (“ideologia de gênero”, “comunismo”, “doutrinação marxista”) também fazem parte do arsenal bolsonarista para sustentar a “narrativa” do “mito” (de pés de barro), que não erra e nem falha, apesar de todas as suas contradições ou talvez por isso mesmo.

Guerras de memória em tempos sombrios

“A memória é, pois imprescindível na medida que

esclarece sobre o vínculo entre

a sucessão de gerações e o tempo

histórico que as acompanha.”

(ORIÁ, 1998, p. 139).

A ascensão de líderes populistas nacionalistas e de caráter liberal fascista é uma tendência que vem ganhando cada vez mais expressividade nas entranhas da democracia liberal. Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Hungria, Polônia são exemplos de países ocidentais em que a agenda do nacionalismo populista se evidencia de forma crescente. Na América Latina, atualmente, esse cenário se evidencia na eleição de Jair Bolsonaro.

Em jornais impressos, versões online e notas anteriores, o Espaço Socialista buscou caracterizar o governo Bolsonaro e a conjuntura cada vez mais sombria que a burguesia aliada ao então governo busca impor à classe trabalhadora, explorados e oprimidos. Dentre todas as temáticas que envolvem essa caracterização, há também um ponto que merece destaque: o de que o governo Bolsonaro e toda a sua cúpula buscam forjar os acontecimentos históricos que marcaram profundamente a História do país.

Dentre o universo de falseamento da história promovida em pouco mais de 2 meses de governo, focaremos em uma especialmente: a Ditadura Militar, que perdurou 21 anos no país (1964-1985).

Para mergulhar na reflexão é imprescindível iniciá-la apontando que a negação e a falsificação de acontecimentos históricos desse país são alimentadas, em grande medida, pela impunidade (ausência de justiça) e pela ausência de arrependimento, remorso ou culpa por parte dos algozes diretos e indiretos e dos apoiadores de ontem e de hoje.

No último dia 13/02, o vice-presidente general Antônio Hamilton Mourão (PRTB) afirmou em um encontro para o empresariado brasileiro, que o Regime Militar não se tratou de uma Ditadura imposta por militares, mas de um governo autoritário2 que se deu de forma ordeira e normal em nosso país. Segundo ele, o autoritarismo do Regime só durou por 10 anos em que o restante do período correu sem instrumentos de exceção. Seu cinismo de canalhocrata termina por afirmar que o Regime que perdurou por 21 anos (1964-1985) foi um período de governo de presidentes militares no poder com o aval do povo, e não um Regime de Ditadura Militar.

Pois bem, caro(a) leitor(a), é preciso contrapor esse falseamento histórico. E um dos passos importantes é revelar a memória histórica que foi arrancada da classe trabalhadora: conhecer sua própria história como classe trabalhadora, é parte fundamental para que os trabalhadores consigam enxergar o que os patrões e seus governos tentam esconder com o objetivo de tentar frear a luta, única ferramenta capaz de se contrapor ao aumento do arrocho salarial, do desemprego, da retirada de direitos. Reflitamos, portanto.

Em março deste ano, completará 55 anos que o país mergulhava em um dos períodos mais tenebrosos de sua história, após o período escravocrata: o golpe de 1964 promovido pelos militares em 31 de março daquele ano, impondo uma Ditadura Militar no Brasil. Depuseram o presidente João Goulart, por meio de um golpe militar que contou com apoio empresarial, objetivando salvar as classes dominantes que estavam politicamente derrotadas pela intensa mobilização popular da época. Por isso, implantaram um regime que subtraiu as liberdades democráticas, impôs o arrocho salarial, ampliou a desnacionalização da economia, com maior favorecimento ao capital internacional e se alinhou à política de guerra fria no interesse do imperialismo estadunidense, cujo país forneceu as informações de inteligência, as técnicas de tortura e apoio diplomático aos militares golpistas.

Além disso, a corrupção se alastrou pelos espaços do Estado: a infraestrutura do país continuou a ser direcionada para atender as demandas do Capital e na estrutura do governo militar, os empresários não pouparam esforços e gastos para agilizarem que seus interesses na máquina do Estado fossem atendidos. Os empresários tiveram através dos militares e de seus ministros civis, seus pleitos garantidos através do pagamento de propinas que só mudam a forma como são pagas hoje, mas que já existiam antes e também durante o governo militar.

Tais ações foram promovidas e financiadas pelos capitalistas que buscavam agir para aprofundar a exploração da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, conter a luta de classes. Documentos do Ato Institucional nº 5, de 1968, mostram como os capitalistas arquitetaram o endurecimento do regime para frear a luta de classes no Brasil. Antes do AI 5, a classe trabalhadora se movimentava para intensificar os processos de luta, com greves marcantes, como foi a greve dos metalúrgicos na Cobrasma, empresa metalúrgica instalada na cidade de Osasco em São Paulo, a greve dos metalúrgicos em Contagem/MG em que os trabalhadores paralisaram empresas como a Belgo-Mineira e a Mannesmann. Além da repressão do governo colocando militares para atacar as manifestações, empresas multinacionais instaladas no Brasil, como a Volkswagen financiaram os serviços de informação do governo para perseguir, prender e torturar, trabalhadores que organizavam a retomada das lutas. Fora do Brasil, outros movimentos ganhavam força, como na França, onde estudantes ocupavam as ruas de Paris, exigindo liberdade. Ou seja, o ano de 1968 foi mais um dos momentos em que os capitalistas agiram para conter a luta dos trabalhadores que se fortalecia exigindo liberdade e melhores condições de vida e trabalho.

O estudo sobre o Regime Militar é extenso, há dezenas de dissertações de Mestrado, teses de Doutorado, artigos acadêmicos científicos, livros publicados que abordam o tema em seus diversos aspectos político, econômico, social e cultural. Há dezenas de depoimentos – em que a ciência da História caracteriza como História Oral –, de vítimas desse Regime e que relatam as atrocidades, as torturas pelas quais foram submetidas e os assassinatos de centenas de pessoas que se opunham à Ditadura. Inclusive, o Coronel Brilhante Ustra, ídolo enaltecido sempre que pode por Jair Bolsonaro e o seu clã, é um dos mais citados como o mais temido torturador daquele período, com práticas abomináveis que iam desde o estupro de mulheres na frente de seus filhos e filhas, como a introdução de ratos nas vaginas das vítimas, ou a retirada dos bicos dos seios das vítimas mulheres. Sob seu comando, o terror da tortura não poupava nem crianças.

Houve uma Comissão da Verdade3 que durante dois anos e sete meses de trabalho produziu um relatório reunindo 4.328 páginas em três volumes4. O relatório apresentou quatro conclusões inquestionáveis acerca do período da Ditadura de 1964: I) houve graves violações de direitos humanos; II) estas possuíram um caráter sistemático e generalizado; III) configurou-se claramente um quadro de crimes contra a humanidade; IV) por fim, estas violações persistem no presente.

A caracterização acima, caro(a) leitor(a) tão necessária em tempos de ameaças aos direitos trabalhistas e sociais, ao direito de organização e luta por melhores condições de vida. Nessa direção, fundamental é revelar a memória histórica. Fundamental é esclarecer a classe trabalhadora de conjunto e contrapor declarações como a do vice-presidente Hamilton Mourão, mas também contrapor “intelectuais” que prestam um desserviço à História e a classe, como é o exemplo do livro “Ditadura à brasileira. 1964-1985: a democracia golpeada à esquerda e à direita”, de um historiador bastante presente na grande imprensa: Marco Antônio Villa. Um dos problemas desse livro é que paira sobre a argumentação de Villa a ideia da “ditabranda”. Caracterizar dessa forma um dos períodos mais sombrios de nossa História é deixar aflorar a mitologia da “ditabranda”, que parece fundar uma classificação específica da ditadura brasileira, porque significa exumar os espectros de uma cordialidade brasileira, faca de dois gumes, mas cortante, que sempre serviu como véu da violência mais pervasiva de uma sociabilidade marcada pela permanência de dominações. Essa “comunidade intelectual” age por meio da divisão social e institucional do trabalho de negação e/ou revisionismo em que trabalham colaboradores da Wikipédia e da Metapédia, militares ativos e da reserva, passando também, por exemplo, por boa parte da chamada “Nova Direita”, por jornalistas e historiadores.

Nesses tempos sombrios, travar o bom combate também perpassa pelo reconhecimento de quem são os assassinos da memória, por se tratar de um importante instrumento somador na construção de mobilização e organização da luta por parte da classe trabalhadora frente aos ataques que virão. Os assassinos da memória, isto é, os capitalistas e os governos que são vassalos dos seus intermináveis interesses, buscam desconstruir a história e períodos em que patrocinavam as barbáries para manterem a lógica perversa do lucro a qualquer custo.

Para conseguirem isso, utilizam de todas as artimanhas e recursos disponíveis, seja através de entretenimentos vazios, com o objetivo de aumentar nossa sensibilidade social e se acostumar a ver a vulgaridade e a estupidez como as coisas mais normais do mundo, incapacitando-nos de alcançar uma consciência crítica da realidade. Nesta subcultura do entretenimento vazio, o que é promovido, é um sistema baseado nos valores do individualismo possessivo, no qual a solidariedade e o apoio mútuo são considerados algo ingênuo. Seja pelo patrocínio a proliferação de notícias falsas, de narrativas toscas que hipnotizam a muitos, criando uma realidade paralela principalmente por meio das redes sociais. Seja descaracterizando ou minimizando períodos e que buscam ocultar os fatos históricos.

Por isso é tão fundamental a classe trabalhadora conhecer a verdade sobre sua história, sobre suas lutas para garantir direitos políticos e sociais, para não serem enganadas ou embarcarem em aventuras autoritárias. Conhecer o passado para não se repetir tragédias no futuro. Só lutando mudamos a vida. Venceremos!

*Texto escrito por Emerson Bellini Lefcadito de Souza. Historiador, militante do Espaço Socialista, Servidor Público Federal, pai e apaixonado pelo Corinthians.

*Indicações de leitura além dos materiais do Espaço Socialista:

– Brasil: Nunca Mais – Paulo Evaristo Arns

– Ainda Estou Aqui – Marcelo Rubens Paiva

– O que é isso, companheiro? – Fernando Gabeira

– Marighella – Mário Magalhães

– As meninas – Lygia Fagundes Telles

– Ecos Do Golpe: A Persistência Da Ditadura 50 Anos Depois – Organizada por Eduardo Granja Coutinho e Mauro Luis Iasi

– Memórias da Resistência – Organizadores: Marco Escrivão, Tito Flávio Bellini, Pedro F. Russo

 

 

 

 

1 Em 1988, Chico Mendes recebeu o prêmio Global 500 da ONU. Aos 47 anos, em 22 de dezembro desse mesmo ano, foi morto com tiros de espingarda no peito a mando de um fazendeiro da região.

2 https://oglobo.globo.com/brasil/nao-foi-ditadura-mas-governo-autoritario-diz-mourao-sobre-regime-de-1964-23448994

3 A Lei que cria a Comissão da Verdade (CNV) foi sancionada pela presidente Dilma Roussef e previa a apuração das graves violações aos direitos humanos e/ou crimes de lesa-humanidade, entre 1946 e 1988, mas não possuía caráter punitivo. A CNV trouxe à tona o debate sobre a necessidade de apurar os crimes praticados pela Ditadura Militar, amplamente apoiada pelo imperialismo norte-americano e por diversos setores da sociedade, como a TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, os principais jornais do país e empresários de todos os ramos. A CNV tinha como tarefa institucional estabelecer as circunstâncias em que aconteceram as mortes, torturas e outros crimes praticados pelos agentes do Estado. Em seu trabalho, a Comissão Nacional da Verdade deveria levar em consideração a íntima relação das elites civis com os ditadores militares desde o golpe que os levou ao poder.

Vale ressaltar que a luta pela verdade e justiça ainda está muito atrasada no Brasil. Basta dizer que, entre os países que integraram a OPERAÇÃO CONDOR (aliança secreta entre Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, orquestrada pelos Estados Unidos, entre os anos de 1960 e 1970, para combater movimentos de esquerda), só o Brasil não instalou a Comissão da Verdade, nem começou a PUNIR os militares que cometeram crimes de LESA HUMANIDADE.

O Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) recomendou, em 02 de novembro de 2005, que o Brasil tornasse públicos os documentos relevantes sobre os crimes cometidos durante essa fase do país, RESPONSABILIZANDO SEUS AUTORES. A Corte Interamericana de Direitos Humanos, um órgão da OEA – Organização dos Estados Americanos, já CONDENOU o Brasil por não esclarecer os fatos, não prestar a reparação dos parentes de vítimas, nem PUNIR OS RESPONSÁVEIS PELA REPRESSÃO.

Entretanto, é sabido e notório que o aparato repressivo da Ditadura não foi desmontado totalmente e deixa suas marcas nos milhares de jovens, na grande maioria negra, exterminada nas favelas e meninas violentadas. Não deve ser desmerecido a criação da CNV, porém, fundamental seria uma Comissão Nacional da Verdade que faça JUSTIÇA – por meio da luta e do apoio popular – dando-se um passo para avançar na construção de uma sociedade comprometida com a MEMÓRIA, com a VERDADE e com a JUSTIÇA (Fonte: Movimento pela Memória, Verdade e Justiça, Maio de 2012).