Revista Primavera Vermelha – Apresentação


25 de setembro de 2012

Apresentação do projeto da Revista

Apresentamos aos ativistas e militantes do movimento social a REVISTA PRIMAVERA VERMELHA, que é impulsionada pelo ESPAÇO SOCIALISTA  e que entre os seus principais objetivos está o de construir e fortalecer um espaço de debates de temas teóricos ligados à luta de classes.

Se 1917 foi um ano que apontou novos horizontes e novas esperanças para os revolucionários do mundo inteiro, os processos do Leste Europeu de fins da década de 80 e início da década de 90 foram anos de fantasmas e crise generalizada na esquerda mundial. Aproveitando esse processo, o capitalismo mundial impôs uma brutal ofensiva econômica, militar e ideológica do capitalismo contra os trabalhadores, retirando direitos históricos dos trabalhadores e ainda avançando contra a consciência dessas figuras. Os revolucionários, por diferentes razões, não conseguiram fazer frente a esses ataques e o que marcou foi a decomposição teórica e política da esquerda como um todo. Caracterizamos esse período como de uma profunda crise da alternativa socialista e a perda de uma referência e alternativa frente aos ataques do capital.

Mas a história provou que sob o capitalismo o que resta aos trabalhadores é a fome que galopa em todos os continentes; são as guerras que destróem milhares de vidas pelo controle das riquezas naturais; é a destruição da natureza e de uma crise ambiental sem precedentes; é a angustia de viver em um mundo sem nenhuma perspectiva e que em todos os seus atos aliena o homem em relação ao seu mundo, enfim, um sistema que se não for destruído, coloca em risco a existência da humanidade.

Ante a crise que ainda persiste na esquerda e o caráter cada vez mais destrutivo do capitalismo, colocamos para nós como tarefa central a busca da renovação e desenvolvimento teórico que consiga impulsionar a construção de um programa socialista que faça frente ao capitalismo do século XXI, ou nas palavras de Lênin, novas respostas para os novos problemas que foram colocados no fim do século XX. Colocamos como condição que esse processo seja alicerçado no enfrentamento do trabalho contra o capital, pois não acreditamos que seja possível qualquer recomposição teórica divorciada dos fatos concretos da luta de classes. Contribuir para impulsionar esse debate teórico-programático constitui-se como o primeiro e principal objetivo dessa revista.

Sem querer se aprofundar no balanço do significado da experiência do PT para a luta de classes no Brasil, um elemento chama a atenção que foi a formação de milhares de militantes sem um embasamento teórico e político do significado da luta de classes e seus desdobramentos. Milhares de aguerridos militantes tinham na prática seu único instrumento de atuação, constituindo-se em um praticismo cego e de devoção às elaborações das direções que tomavam conta do aparelho de produção da política do partido e das organizações do movimento social influenciadas pelo partido. Uma militância com uma concepção de mundo que se diferencia muito pouco do senso comum. Uma militância acrítica e quase religiosa que de sujeito do processo histórico passa a objeto. A desgraça é que esse “modelo” serviu tanto ao reformismo (principalmente ao petista) como para a quase totalidade das organizações revolucionárias.

O segundo objetivo da revista é, então, de se constituir num projeto de formação teórica e política para os novos – e velhos – militantes e ativistas que estão surgindo nas lutas que enfrentam PT e CUT – a velha direção que privou os militantes de uma formação teórica e política, justamente para facilitar sua caminhada em direção aos palácios que se constituíram no quartel general desses funcionários da burguesia imperialista e que implementa com magistral eficiência a política decidida nos consensos de Washington, Londres, Berlin, etc. Estamos nos propondo a uma tarefa gigantesca que é contribuir para a formação dos ativistas de maneira que, preparados teoricamente, possam qualificar sua intervenção e se colocarem como sujeitos de sua militância.

Outra face dessa mesma – limitada – moeda é a conformação de uma “outra corrente” que se dedica somente à atividade teórica (invariavelmente à sua formação individual), desprezando e desqualificando a militância que atua nos fatos concretos da luta de classes. Se é verdade que há em seu interior honestos revolucionários, também é verdade que, isoladamente, as idéias e a teoria descolada dos processos reais da luta de classes nunca se constituiu em alternativa aos sistemas de dominação. Partilhamos da idéia de que a “teoria em si (…) não muda o mundo” [1].

O terceiro elemento impulsionador desse projeto é que compartilhamos da idéia de que teoria e prática não se separam mecanicamente, de que ou o militante atua no movimento ou estuda a teoria e que tal separação resulta ou no praticismo ou no academicismo, situação que podemos chamar de um subproduto da divisão social do trabalho burguês: trabalho manual e trabalho intelectual no movimento social, ou seja, uns poucos iluminados detém a teoria e orientam os demais a cumprir a política e as tarefas decorrentes dessa mesma política.

Negamos e lutamos contra essa concepção porque, como Marx, acreditamos que o operário, com todas as limitações que o sistema lhe impôs, é capaz de superá-las e chegar à compreensão científica desse mundo que oprime e explora. Mas isso só pode se realizar se a sua prática for dotada da teoria e vice-versa, de forma que, numa relação dialética, uma alimente a outra. Para nós, o ato de passar transformar-se de trabalhador inconsciente para consciente deve significar uma totalidade, um rompimento com seu passado de sujeição e submissão, ou seja, deve declarar a independência de seu pensamento em relação aos especialistas em teoria.

Assim, nos colocamos como nossa tarefa tratar de temas teóricos ligados aos problemas concretos que os militantes enfrentam na luta de classes, procurando construir uma “síntese superadora” do praticismo e do academicismo, ou seja, atuando e refletindo. Nos colocamos como militantes que têm na teoria um elemento de esclarecimento, fundamentação e enriquecimento de nossa atividade militante e não como um fim em si mesma.

A história das organizações de esquerda, sobretudo no Brasil, tem sido marcada por uma concepção monolítica de discussão e elaboração teórica, com normas que proíbem que os debates extrapolem as fronteiras da organização. É quase um pecado e sinônimo de crise quando os debates e polêmicas que ocorrem no interior de uma organização ganham dimensão pública, ou seja, aquilo que poderia ser expressão de um vigor passa a ser motivo de vergonha. Não pensamos assim, pois para nós o debate (processo dialético de negação e afirmação) é um aporte fundamental para o desenvolvimento do marxismo e das organizações que se reivindicam como tal. A supressão dos debates públicos entre militantes revolucionários é produto direto do stalinismo, que transformou em princípio a política adotada excepcionalmente pelos bolcheviques para enfrentar a contra-revolução interna e externa.

A ausência de debates produz uma relação alienada entre as organizações de esquerda e seus próprios militantes, os quais não participam de nenhuma esfera do processo de construção da política e da teoria, ficando reservado ao militante – voltando à separação teoria e prática – o papel de aplicar a política. O produto da discussão de sua própria organização transforma-se em um monstro que sequer é compreendido.

Essas são as bases para o quarto elemento impulsionador da revista: é uma revista de debates no campo do marxismo e da luta de classes, da qual as organizações, seus militantes ou ainda militantes independentes, participam do conjunto do projeto (elaboração, confecção e distribuição).

Não pensamos que essas tarefas possam ser superadas por uma única e iluminada organização de revolucionários, e é por isso que o quinto elemento impulsionador é que a revista se propõe a ser autônoma e independente das organizações. Seu conselho editorial é o espaço de definição do seu formato, temas, matérias, etc. Assim, o surgimento da revista justifica-se porque as revistas que se propõem a discutir teoria, ou são “propriedade” de uma organização, portanto, limitadas aos seus interesses, ou são aquelas produzidas nas universidades com uma finalidade bem delimitada, que é a circulação nos meios acadêmicos. Ainda que os consideremos válidos e legítimos, a revista é a negação desses dois projetos porque, primeiro, como já dissemos, é impulsionada por organizações distintas e depois porque não se propõe a circular exclusivamente nos meios acadêmicos, pelo contrário, busca se firmar nos espaços da militância do movimento social.

Reafirmamos o chamado aos militantes, ativistas do movimento social e às organizações revolucionárias que estejam propensas ao debate e não se apeguem às verdades imutáveis, comportamento típico das seitas. Só assim poderemos construir essa ferramenta teórica e política.

Conselho editorial