Por que a indiferença no Brasil com a Copa do Mundo? (parte I)


5 de junho de 2018

Alex Brasil*

Introdução:

Faltando poucos dias para o início da 21ª Copa do Mundo tem chamado a atenção a indiferença com o qual o evento vem sendo tratado no Brasil, único país que participou de todas as edições da competição. Quase nenhuma rua enfeitada, pintada, bem diferente dos climas de Copas passadas. Os suvenires estão encalhados. O Alzirão, tradicional ponto de encontro da rua Alzira Brandão na Tijuca, Rio de Janeiro quando a temática é a Copa do Mundo, está ameaçado. De acordo com pesquisa do Instituto Paraná, 66% dos entrevistados tem pouco ou nenhum interesse no evento e 14,5% não sabem nem onde será disputada a Copa do Mundo.

Para ilustrar esse cenário, o jornal “Extra” do dia 27 de maio comentou o fato, após a chegada da seleção brasileira para se hospedar na Granja Comary, localizada numa cidade da região serrana do Rio de Janeiro: “Quatro anos depois, Teresópolis recebeu a seleção entre indiferença e tumulto“. Já a revista “Isto É“, na sua edição de maio, além de elencar alguns motivos para a falta de interesse (o trauma da derrota de 7 a 1 para Alemanha, em 2014, a corrupção na CBF, a ausência de legado para o país da última Copa) perguntou na sua manchete de capa: “É o fim da Pátria de chuteiras?”.

O Instituto DataFolha, em pesquisa realizada em início de maio, apontou que 41% das pessoas se mostraram totalmente desinteressadas quando o assunto é futebol e que este percentual sobe para 42%, quando o assunto é Copa do Mundo. Ao comentar estes dados, o historiador Airton de Farias falou: “Acho que há sim uma contribuição do episódio do 7 a 1, mas a redução pelo interesse pelo futebol vem de um movimento anterior – a mercantilização do futebol, que começou principalmente no final da década de 1970” .

Por seu lado, o o baterista do Ira, André Jung, se manifestou no Facebook: “A um mês da Copa e nada de verde e amarelo … sinto que o movimento paneleiro, hoje morto de vergonha, é o grande responsável pelo fracasso nas vendas de camisas, bandeiras, faixas e outros símbolos pátrios. A camisa da seleção virou uniforme de pato.”. E João Gordo, do Ratos do Porão, resumiu: “Tá chegando a copa e eu não vejo NINGUÉM com a camisa do Brasil. Porque essa camisa virou sinônimo de filho da puta, de golpista”.

Por fim, o jornalista Renato Maurício Prado, na sua coluna no “Jornal do Brasil” de 30 de maio, foi mais além e constatou: “Resumo da ópera: além da impressionante indiferença em relação à Copa do Mundo (insisto, até o momento, empolgação só existe nas propagandas de TV), há no ar até certa antipatia em relação à seleção brasileira e total falta de identificação com a maioria dos jogadores – que atuam fora do país há muito tempo.“.

Este artigo, dividido em duas partes, procurará dar a sua contribuição para esse debate: de como se deu esse processo de construção desse símbolo chamado seleção brasileira de futebol, a “a pátria de chuteiras”, no imaginário do nosso povo e quais os elementos que estão levando a sua desconstrução de forma acelerada.

Surge a Seleção Brasileira como expressão do nascente Estado nacional brasileiro (1895-1919)

O futebol chegou oficialmente como esporte no Brasil, no final do século XIX, sete anos depois da “abolição” da escravidão e seis anos após o fim da monarquia e da proclamação da República. A prática desse esporte, entretanto, não era republicana e reproduzia a exclusão dos negros e filhos de negros, teoricamente “libertos”, na sociedade brasileira: era praticado somente pelos filhos da elite brasileira, que mandavam os seus filhos para estudar nos colégios na Inglaterra, de onde o jogo foi trazido para o nosso país por Charles Miller.

Nas três primeiras décadas do seu advento, o futebol disputou com outros esportes a preferência popular (o remo, por exemplo). Mas, mesmo assim a prática do futebol no Brasil continuou extremamente segregacionista, racista e elitista. Permitia-se somente como praticantes, nos principais clubes, rapazes de boa família, em sua grande maioria brancos, em função de que era um jogo amador. Assim se combatia a prática de profissionalismo no jogo e evitava-se, dessa forma, a incorporação de negros e mestiços, de origens bem mais humildes, que tinham que trabalhar para subsistir.

Como exemplificando esse racismo, no Fluminense do Rio de Janeiro, o grande clube carioca do início do século XX, o jogador Carlos Alberto passava pó de arroz no rosto para atuar pelo tricolor do bairro nobre das Laranjeiras. Veio desse episódio a identificação, até hoje, do torcedor desse clube como pó de arroz. Por isso, alguns intelectuais como o jornalista e escritor Lima Barreto (também vítima do racismo) atacavam o futebol, apontando o esporte como “estrangeirismo”, agressivo a nossa cultura.

A exceção parcial ao racismo vigente se deu justamente com o filho de um alemão com uma mulata, de nome Arthur Friedenreich, o “El Tigre”, o primeiro grande craque do nosso futebol. Mas, Fried, para jogar no futebol paulista, tinha que disfarçar a sua cor, alisando os cabelos crespos. Foi justamente ele que garantiu a primeira conquista do selecionado nacional, em 1919, contra o Uruguai, no campo do Fluminense, em um estádio abarrotado de torcedores.

Essa vitória possibilitou o título do Sulamericano daquele ano e mexeu com o imaginário popular, rendendo até o famoso choro composto por Pixinguinha, “1 X 0”. A seleção brasileira (que iniciara as suas atividades cinco anos antes e que tinha como fomentador uma entidade jurídico privada, a Confederação Brasileira de Desportos, criada em 1916) poderia ser um instrumento importante a ser usado para a afirmação do Estado nacional brasileiro, cuja “independência” do país sequer tinha completado cem anos. Eram tempos de nacionalismo exacerbado (a 1ª Guerra Mundial, tinha acabado um ano antes).

A crise da “República Velha” no Estado brasileiro bate no selecionado nacional (1920- julho de 1930)

Os anos vinte do século passado foram de profundas transformações na sociedade brasileira, que marcaram o fim da chamada “República Velha”: o movimento tenentista, a semana de Arte Moderna, o surgimento do Partido Comunista do Brasil (PCB), todos acontecimentos em 1922; a Coluna Prestes; o impulso à industrialização; o fim do modelo agroexportador da “sociedade do café com leite” e a quebra da Bolsa de Nova York. Diante de um modelo de dominação que ruía, surgia um novo que buscava incorporar minimamente ao consumo as amplas massas negras e deserdadas desde o fim da escravidão no final do século passado.

Neste contexto conturbado, não foi à toa a aparição do Clube de Regatas do Vasco da Gama, em 1923, com 12 atletas negros e semi-profissionalizados no elenco, que arrebataram o título do campeonato do Distrito Federal daquele ano. A resposta dos outros quatro grandes clubes cariocas (America, Botafogo, Flamengo e Fluminense) foi afastar o Vasco da Liga principal, sob acusação de prática de profissionalismo, e exigir do clube da Cruz de Malta a construção de um estádio próprio.

Por detrás do argumento de profissionalismo se escondia a motivação racista: ora, se o Vasco foi o segundo a introduzir o atleta negro nas suas equipes (a primazia coube ao Bangu Atletic Club, time da fábrica têxtil Bangu), entretanto, foi o primeiro a ganhar o título carioca, quebrando a hegemonia dos times brancos e de filhos boa família dos chamados quatro grandes. O Vasco só seria readmitido, tempos depois, ao convívio dos grandes com a construção de São Januário, que virou o maior estádio do país, no final dos anos vinte.

Enquanto o futebol se popularizava na América Latina (na Argentina e no Uruguai já tinha sido adotado o profissionalismo) e na Europa (surgiram dezenas de times de fábrica ou diretamente incentivados pelas correntes majoritárias no movimento operário, como os anarquistas, os comunistas e os sociais-democratas), o futebol brasileiro também se popularizava , mas resistia à adoção do profissionalismo, reflexo da crise final da “República Velha”.

Na primeira Copa do Mundo (competição criada pelo francês Julles Rimet, na esteira das Olimpíadas modernas), em julho de 1930 no Uruguai, o Brasil teve participação melancólica: foi eliminado na primeira fase, em função de não ter mandado a sua força máxima, com o boicote dos paulistas ao selecionado nacional, que era sintoma da disputa político-econômica entre os diversos estados da Federação. O craque brasileiro Preguinho (multi-atleta amador, competidor também no basquetebol, atletismo e natação pelo Fluminense) não pode fazer muita coisa, assim como o primeiro grande ídolo negro do futebol brasileiro, o vascaíno Fausto dos Santos, apelidado pelos anfitriões uruguaios (que se tornaram os campeões) de “A Maravilha Negra”.

A consolidação do Estado Moderno burguês brasileiro, o profissionalismo no futebol e a seleção brasileira como política de Estado (outubro de 1930-1938)

A chegada de Getúlio Vargas ao poder, em outubro de 1930, encabeçando as frações burguesas que derrubaram a “República Velha”, foi alterando, aos poucos, o quadro de crise no futebol brasileiro. Mas, mesmo assim, este continuou mergulhado em situação conturbada: muitos craques paulistas, inclusive Friedenreich, pegaram em armas ao lado dos insurgentes paulistas contra a “República Nova” (1932). Somente, em 1933, foi finalmente adotado o profissionalismo, mas com diversas crises: o campeonato do Rio de Janeiro (então Distrito Federal e juntamente com o paulista o mais importante do país) ficou dividido em duas ligas por quatro anos.

No ano de 1934, o Brasil, refletindo essa divisão, mais uma vez participou de forma melancólica da II Copa do Mundo, na Itália, sendo eliminado no primeiro jogo pela Espanha. Neste certame, os jogadores que tinham aderido ao regime profissional não foram convocados. Mesmo assim, o destaque brasileiro foi mais uma vez um atleta negro, Leônidas da Silva, “contratado” para atuar pela seleção “amadora” brasileira. Curiosamente, foi na II Copa do Mundo, que o futebol pela primeira vez foi adotado como política de Estado, como no caso da Itália presidida pelo fascista Benito Mussolini, por coincidência, campeã do mundo naquela competição.

O amadorismo acabou sucumbindo, nos meados dos anos trinta. Ajudou para isto o golpe do Estado Novo, dado por Getúlio Vargas em 1937, que procurou controlar, cooptar e canalizar as grandes manifestações populares, artistas e intelectuais. Entre essas manifestações populares estava o futebol, já de longe o esporte com maior penetração entre os brasileiro. A sociologia de Gilberto Freire em “Casagrande e senzala” (1933) procurou lastrear e legitimar o “Estado varguista” que surgia, tentando justificar a integração de polos opostos da sociedade brasileira, casagrande e senzala

Sob o manto do Estado forte, o futebol, como expressão popular mais contundente, era parte dessa integração pregada por Freire, juntando na torcida em torno do mesmo clube, patrões e empregados, ricos e pobres, brancos e negros. Getúlio seguia os passos do italiano Mussolini, aliás, por quem nutria grande admiração pelo seu anti-comunismo e pelo controle que exercia sobre as classes subalternas.

O Clube de Regatas do Flamengo, dentre os clubes brasileiros, foi o que mais habilmente percebeu as mudanças que se operavam na sociedade brasileira e seus reflexos no futebol. Deslocado da sua base social anterior (o bairro de classe média homônimo) e passando a funcionar em uma região de fábricas têxteis (a Gávea do início do século passado, conhecida como “Gávea Vermelha”, pela atuação de comunistas e anarquistas), o Flamengo, através do seu presidente (o publicitário José Bastos Padilha), incorporou o ideário populista do “Estado varguista”, de integração entre as classes e as raças.

Neste sentido, o Flamengo tornou seu presidente honorário Getúlio Vargas e trouxe para o seu elenco de futebol os quatro maiores craques brasileiros dos anos trinta, todos eles negros: Domingos da Guia, o “Divino”, Fausto dos Santos, “A Maravilha Negra”, Leônidas da Silva, o “Diamante Negro” e Valdemar de Brito, o “Bailarino”. De um clube decadente que tinha se afastado do seu local de origem, o Flamengo se reinventou e passou a ser o de maior penetração popular no Brasil, superando o Vasco da Gama. A rádio estatal Nacional também ajudou a popularizar em todo o território brasileiro o rubro-negro do então Distrito Federal.

Como reflexo das mudanças operadas na sociedade brasileira, a III Copa do Mundo, de 1938 na França, foi tratada de forma diferente pelo governo e pelos dirigentes do futebol brasileiro. O Brasil mandou a sua força máxima, chegando ao terceiro lugar, sendo eliminado pela bicampeã Itália de Mussolini e do craque Piola, de forma polêmica, nas semi-finais. Leônidas da Silva, o artilheiro desta Copa, chegou a ser a terceira pessoa mais popular do país, rivalizando com Getúlio Vargas e Orlando Silva, contratado da Rádio Nacional e conhecido como o “cantor das multidões”. Por esse motivo, Leônidas foi o primeiro jogador a se tornar um garoto-propaganda de sucesso: o chocolate “Diamante Negro” (existente até hoje) dava a dimensão da popularidade do craque.

O nacional desenvolvimentismo desemboca na IV e V Copas do Mundo (1939-1954)

Nos anos quarenta, as Copas do Mundo foram suspensas, assim como as Olimpíadas, em função da II Guerra Mundial (1939-1945). O Brasil ditadorial de Vargas acabou entrando na Guerra, em 1943, contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Vários jogadores de futebol estavam entre os 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), entre os quais Perácio, jogador da Seleção de 1938 e atleta do Flamengo. Já demonstrando o controle que o Estado Brasileiro tinha sobre o futebol, clubes de origem germânica (Novo Hamburgo do Rio Grande do Sul) e italiana (Palestras Itálias de São Paulo e de Minas Gerais) fundados pela mão de obra imigrante, foram “incentivados” a mudarem de nome e se tornaram, respectivamente, Floriano, Palmeiras e Cruzeiro, para sobreviver.

A afirmação do Estado Nacional Brasileiro, erguido por cima através de um “Pacto Social” populista iniciado na era varguista, seguia com controle das classes populares, através dos sindicatos e das manifestações populares, o que se somava à perseguição ao PCB, colocado novamente na ilegalidade, em 1947, reflexo direto da “Guerra Fria”. Surgia também com força a literatura esportiva, como expressão desse contexto: no ano de 1947, o livro clássico de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, foi um correlato à “Casagrande e Senzala” da sociologia brasileira. Outros intelectuais e artistas de peso se envolveram profundamente com o futebol (e com o Flamengo), como o escritor e jornalista José Lins do Rego e o compositor e radialista Ary Barroso.

Para afirmação desse Estado desenvolvimentista (balizado pelos acordos da II Guerra Mundial com o imperialismo norte-americano que permitiram a criação da Companhia de Siderúrgica Nacional) no cenário mundial, nada melhor do que o patrocínio brasileiro na IV Copa do Mundo, em 1950 e a construção do maior estádio de futebol do mundo, o Maracanã (então estádio Municipal). Com capacidade para duzentas mil pessoas, o Maracanã sobrepujou o Pacaembu, construído em 1942, e por oito anos o maior estádio brasileiro.

O roteiro da IV Copa do Mundo estava perfeito para diversos políticos populistas faturarem com a conquista, tida como certa para a seleção brasileira de craques como o sãopaulino Bauer, o vascaíno Danilo e o palmeirense Jair Rosa Pinto. Mas o desfecho foi trágico: o Brasil, precisando de um empate, perdeu a final para o Uruguai. Mesmo assim, Ademir do Vasco acabou como o artilheiro da competição e Zizinho, o craque negro do Bangu, foi apontado como o principal jogador do certame. Porém, a derrota inesperada trouxe à baila novamente o racismo, culpabilizando-se pela tragédia os jogadores negros Barbosa (Vasco), Juvenal e Bigode (Flamengo), que, supostamente, teriam tremido para o Uruguai de Obdúlio Varella, curiosamente, também negro.

Uma nova tentativa de sucesso no futebol brasileiro ocorreu na V Copa do Mundo da Suíça, em 1954. Dessa vez para afastar o trauma de 50, trocou-se o uniforme do selecionado nacional por um mais “patriótico”, com todas as cores da bandeira nacional. Esforço em vão: um novo fracasso aconteceu com a seleção brasileira do tricolor Castilho e do ponteiro da Portuguesa de Desportos, Julinho Botelho, sendo ela eliminada pela fortíssima seleção húngara, uma das melhores da história do futebol, nas quartas de final do Mundial.

Em tempos de Guerra Fria e na Coréia, de macartismo nos EUA, de crise aguda no segundo governo Vargas, atribuiu-se a derrota brasileira à “conspiração de comunistas”. Um exagero, sem dúvida, mas, de fato, a histórica seleção húngara de Puskas e Kocsis (campeã das Olimpíadas de 1952) era a vitrine do regime stalinista húngaro. Contudo, a seleção alemã, da mesma maneira surpreendente que o Uruguai quatro anos antes, acabou derrotando os favoritos húngaros, de virada. Quarenta e seis anos depois, a Universidade de Humboldt, em Berlim, levantou suspeitas que os atletas alemães utilizaram estimulantes injetáveis para ganhar a final, depois de ter perdido da mesma Hungria na primeira fase por 8 X 3. Aliás, a vitória da Alemanha na Copa foi mostrada como marco para a reconstrução nacional desse país, devastado pela guerra nas décadas anteriores e debilitado pela divisão em Alemanha Ocidental e Oriental. Já percebia-se que os interesses por detrás do futebol extrapolavam em muito os marcos esportivos.

O bicampeonato mundial brasileiro em seleções e clubes: auge e crise do Estado desenvolvimentista nacional (agosto de 1954-1963)

A tentativa de golpe patrocinada pelo imperialismo norte-americano, o suicídio de Getúlio Vargas, o governo provisório de Café Filho e a eleição conturbada do populista Juscelino Kubitsckek andaram paralelamente à crise instalada no comando da CBD. Para solucioná-la foi necessário pegar um nome desconhecido: um nadador brasileiro nas Olimpíadas de Berlim em 1936 e posteriormente atleta do pólo aquático, que participou das Olimpíadas de Helsinque em 1952 e ganhou a medalha de bronze no pólo nos Jogos Panamericanos de 1955. O desconhecido já era o vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos e também empresário da Viação Cometa. Como prêmio ao seu desempenho nas piscinas, comandou a delegação brasileira nas Olimpíadas de Melbourne, em 1956. Dois anos depois, se elegeu presidente da CBD, em início de 1958. Seu nome: João Havelange.

Muito se fala da importância de Havelange para o Brasil ter se consagrado campeão mundial em 1958, na VI Copa do Mundo da Suécia, até como um correlato de JK no mundo esportivo: empreendedor, ainda que pouco honesto, para não dizer nada. Esquece-se, dessa forma, da extraordinária geração de super-craques (encabeçadas pelos negros Pelé, Garrincha e Didi) que esteve à frente do time brasileiro e que derrotou o futebol científico dos soviéticos, bem como o magistral time francês de Kopa e Fontaine.

Esquece-se também o quanto foi importante o advento do Torneio Rio-São Paulo, no início da década de 50, que acrescentava bastante aos campeonatos regionais e os campeonatos entre seleções estaduais vigentes. Foi através do Rio-São Paulo que craques cariocas como Castilho, Didi, Garrincha, Nílton Santos, Zagallo, Bellini, Orlando, Vavá e Dida se tornaram íntimos da plateia paulista, assim como jogadores paulistas como Pelé, Pepe, Zito, Gylmar, Mazzolla e Djalma Santos do público carioca. Assim, o Brasil formou um time conhecido dos principais centros futebolísticos do país.

Mas, para a conquista do primeiro campeonato mundial, os craques brasileiros precisaram também superar, na prática, um “relatório sigiloso”. Este sim, na conta e anuência de João Havelange, foi produzido pela comissão técnica chefiada pelo empresário das comunicações Paulo Machado de Carvalho (dono das antigas tevês Record), onde se recomendava que na escolha para a escalação entre um atleta branco e um atleta negro, se escolhia o primeiro, mais “equilibrado emocionalmente”. Estas lições farsescas, tiradas dos insucessos anteriores, foram jogadas fora, na lata de lixo da história, pelos craques brasileiros, que acabaram com o “complexo de vira-lata” do nosso futebol, como escrevia o jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues, irmão de Mário Filho.

A conquista de 1958 coincidiu com a abertura do Estado brasileiro ao capital estrangeiro (principalmente na indústria de bens duráveis), os famosos “Cinquenta anos em cinco” do governo de Juscelino Kubitschek. O país vivia um suposto crescimento e o clima de otimismo respirava-se em outros campos: no esportivo (seleção brasileira campeã mundial de basquete, vitórias no tênis com Maria Esther de Bueno, Éder Jofre campeão mundial no boxe), no cultural (surgimento da Bossa Nova e também do Cinema Novo) e na criação de uma nova capital para o país (Brasília) para a integração nacional. A conta do endividamento externo desse período viria na década seguinte, de maneira traumática.

Na esteira da integração nacional, surgiria a Taça Brasil, onde se enfrentariam os campeões de cada estado. O campeão da Taça Brasil participaria do campeonato sulamericano de clubes (posteriormente, chamado de Taça Libertadores da America), criado em 1960. O campeão sulamericano de clubes se enfrentaria com o campeão europeu de clubes, pois a Europa tinha criado o seu campeonato continental (a atual Liga dos Campeões) desde 1955.

Na VII Copa do Mundo de 1962, no Chile, o Brasil, já com um time envelhecido e com Pelé machucado no segundo jogo, ganhou o bicampeonato, graças à atuação decisiva do botafoguense Amarildo no jogo eliminatório das oitavas de final e às performances espetaculares de Mané Garrincha. Contou, também, as ajudas das arbitragens no jogo contra a Espanha e das artimanhas ilícitas que permitiram a escalação do ponta-direita do Botafogo na final contra a Tchecoslováquia, depois dele ter sido expulso nas semifinais contra o Chile. Definitivamente, o futebol já era um esporte com outros interesses em jogo e que era decidido, na maioria das vezes, por fora das quatro linhas.

Uma prova disso foi o bicampeonato mundial do Santos de Pelé, Coutinho, Gylmar, Pepe, Zito, Mauro, Dorval e Mengálvio em cima do Milan italiano. Em três jogos conturbados (os dois últimos no Maracanã para uma média de público de 120 mil pagantes), o Santos prevaleceu a sua fama de melhor time do mundo. Mas, segundo Almir, o Pernambuquinho (que substituiu Pelé machucado e que foi o personagem central desses dois jogos) no seu livro de memórias “Eu e o Futebol”, os dirigentes do Santos doparam praticamente todo o time praieiro e compraram o juiz argentino das duas partidas.

A conquista santista de forma tumultuada no final de 1963 coincidiu com o final tumultuado do governo João Goulart. Depois de uma breve experiência parlamentarista (entre os primeiros ministros experimentados o que ficou mais tempo foi Tancredo Neves), João Goulart, através de um plebiscito, passou a ser presidente de direito e de fato e tentou implementar o projeto nacionalista burguês, através das Reformas de base. Entretanto, os “Cinquenta anos em cinco” de JK deram mais peso no cenário nacional às frações burguesas ligadas às corporações internacionais, ao capital rentista e às empreiteiras. A conta do desenvolvimentismo de JK estava sendo cobrada.

O Golpe de 1964, a conquista do Estado e a crise na Seleção Brasileira, identificada com o projeto anterior (1964-68)

O Golpe Militar de 01 de abril de 1964 procurou abortar o projeto nacional-desenvolvimentista burguês para o Estado brasileiro, alimentado de forma quase ininterrupta pelos populistas, da década de 30 à década de sessenta, além de tentar acabar com a organização de trabalhadores, estudantes e camponeses, afastando, assim, qualquer ameaça do surgimento no país, de uma nova “China”, “Cuba”, ou “Vietnã”, países sacudidos, no período, por revoluções sociais. Diga-se de passagem, a seleção brasileira estava colada, desde os anos 30, a esse projeto nacional-desenvolvimentista.

Dirigentes de clubes importantes como o Corinthians, a Portuguesa de Desportos, o Palmeiras e São Paulo foram expressões da sociedade civil de apoio ao Golpe. O estádio Caio Martins, em Niterói, foi utilizado como prisão de perseguidos pelo golpe, antecipando nove anos o que iria ocorrer com o estádio Nacional, em Santiago do Chile, por ocasião do golpe chefiado pelo general Augusto Pinochet.

Um dos primeiros reflexos do Golpe de 1964 foi, em seguida, o afastamento da URSS da Taça das Nações (torneio patrocinado pela Confederação Brasileira de Desportos, preparatório para a conquista do tricampeonato em 1966) por exigência do reacionário Paulo Machado de Carvalho. Mesmo com uma Taça “comportada, sem comunistas”, abençoada pela presença da realeza inglesa, o Brasil foi eliminado de forma contundente pela Argentina.

As lições dessa derrota não foram tiradas: a seleção brasileira continuou a ser manipulada politicamente para respaldar a ditadura que se instalava. Aquela que foi considerada a melhor geração produzida pelo futebol brasileiro (o cruzamento da geração bicampeã do mundo com a geração que explodiria em 1970, baseado em três times históricos, Santos, Botafogo e Palmeiras) foi desperdiçada, de maneira irresponsável: para a conquista do tricampeonato na VIII Copa do Mundo na Inglaterra foram convocados 45 jogadores, formaram-se 4 times, que algumas vezes, atuavam de forma concomitante, em estados diferentes. O objetivo era utilizar a seleção brasileira para as eleições de 1966, as primeiras que o regime militar enfrentava. Ora, pensavam os dirigentes brasileiros, as prioridades eram outras, pois o tricampeonato mundial era tido como certo.

Sem um time definido, com jogadores mal treinados e preparados, o Brasil, de forma surpreendente para alguns, foi eliminado na primeira fase, aquele que foi considerado para muitos (até os 7 X 1 de 2014), o maior vexame da história do futebol brasileiro. A Inglaterra foi campeã, batendo, em jogos em que a arbitragem lhe favoreceu, Argentina e Alemanha. A eliminação brasileira foi tão surpreendente que o Serviço Nacional de Investigação (SNI) decidiu apurar se o resultado não fora consequência de uma sabotagem para desmoralizar não somente o selecionado nacional, mas também o recém-iniciado regime militar.

O presidente da CBD desde 1957, João Havelange, era suspeito de corrupção e foi um dos investigados. A seleção brasileira chegou a índices baixíssimos de popularidade e jogava para públicos irrisórios, se tratando de um selecionado nacional bicampeão do mundo. Contraditoriamente, o futebol brasileiro incorporava novas forças regionais (Minas Gerais e Rio Grande do Sul, em primeiro plano, e Bahia, Paraná e Pernambuco, em segundo plano) e o Torneio Rio-São Paulo foi ampliado, com a incorporação de times dos estados emergentes, se tornando Torneio Roberto Gomes Pedrosa, embrião do futuro Campeonato Brasileiro, que substituiria, aos poucos a Taça Brasil. Novos estádios com capacidade para dezenas de milhares de torcedores surgiram como o Beira-Rio, o Mineirão e o Morumbi.

No ano de 1968, a seleção brasileira fez uma polêmica excursão a Europa, bastante criticada. Mal se sabia que ali estava sendo montado o time que seria considerado o maior da história do futebol, dois anos depois. Porém, naquele ano, tudo estava sendo questionado por movimentos, explosões e revoluções sociais como o Maio Francês, a Primavera de Praga, os Panteras Negras, a contracultura norte-americana e os protestos contra a guerra imperialista ianque no Vietnã, os vietcongs, as rebeliões estudantis no México, Argentina e Brasil etc.

Como resposta a essa situação, o regime militar deu “o Golpe dentro do Golpe”, editando o AI-5, legitimando o Estado de Exceção ditatorial que já existia. Era necessário criar mais válvulas de escapes para a grande massa: se os clubes nacionais continuavam fortes (destaques para o Santos, Botafogo e o Cruzeiro-MG), revelando craques e mais craques e enchendo estádios, era também fundamental resgatar no imaginário do povo brasileiro, algo que o fizesse sentir orgulho da imagem do país, atacado externamente por denúncias feitas na imprensa internacional de tortura e maus tratos aos presos políticos. Esse algo a mais tinha nome e sobrenome: seleção brasileira de futebol. Era necessário retomar o projeto do selecionado nacional, abandonado desde 1966. João Havelange, notório corrupto, ainda poderia ser muito útil nessa empreitada.

O “Topo” do comunista João Saldanha e “a Epopeia do Tri” do selecionado nacional: contradições no ápice do Estado de Exceção (1969-junho de 70)

De forma surpreendente, Havelange convidou o jornalista comunista João Saldanha, ex-treinador campeão pelo Botafogo do Rio, para ser o técnico da seleção. Saldanha se destacara como o crítico mais feroz dos bastidores do futebol brasileiro, sua denúncia contra a exploração dos jogadores de futebol pelos cartolas, contra o suborno e o doping, contra a pedofilia nas divisões de base dos clubes. A CBD estave sempre na sua alça de mira. Havelange, dessa forma, não só procurava resgatar a popularidade contratando um jornalista carismático, mas também procurava silenciar a imprensa e seu mais ferino jornalista.

O regime militar engoliu esse “sapo”. Sabia, de longa data, das atividades e do posicionamento político do João “Sem Medo”, que chegara a ser baleado, no final dos anos quarenta em um congresso estudantil, pelo policial do DOPS, Cecil Borer, o mesmo que balearia o guerrilheiro Carlos Marighella, em 1964. João também participara ativamente da luta pela terra no Paraná e fora “pombo correio” de Marighella na greve geral que paralisou São Paulo, em 1953. Mas, para os militares, era necessário resgatar o apoio popular à seleção brasileira, e, nesse intuito, Saldanha poderia ser muito útil. Foi o que se comprovou.

Definindo seus titulares e reservas, sem aceitar intromissões, Saldanha, em uma campanha fulminante, conduziu o Brasil, que ganhou todos os jogos e classificou-se nas eliminatórias da IX Copa do Mundo, que se realizaria no México, em 1970. Sua popularidade superava a de Pelé e a do artilheiro brasileiro, Tostão. “As Feras do Saldanha” elevaram a confiança no selecionado nacional a patamares ímpares na história do nosso futebol. O objetivo estava alcançado. Era necessário, agora, se livrar do estorvo de se ter no comando um treinador comunista.

A arapuca começou com provocações públicas do então treinador do Atlético Mineiro e depois do Flamengo (Yustrich). A temperatura subiu, na passagem de Saldanha no México para escolher a concentração brasileira, quando ele montou um dossiê, em que citava mais de 3.000 presos políticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura militar e o distribuiu ao Observer e Le Monde e outros meios de comunicação europeus.. E temperatura continuou a subir com a oposição de Pelé, que se aproveitou de um tropeço da seleção brasileira frente à Argentina, para questionar as orientações táticas de João.

O episódio envolvendo o pedido do ditador Médici para que se convocasse o atacante Dario do Atlético-MG foi o estopim: Saldanha respondeu de forma brusca e não atendeu o pedido. Parecia que não somente a ditadura queria se ver livre do treinador, bem como ele pretendia sair do comando: João barrou Pelé (para ele parte do complô), insinuando que o craque não estava enxergando direito. Ele sabia que estava em um terreno minado: praticamente todo comando técnico era formado por militares, inclusive com a presença do torturador capitão José Bonetti e do major Ypiranga Guaranys, do SNI, futuro agente da repressão no extermínio da Guerrilha do Araguaia, quatro anos depois. O preparador físico, capitão Claudio Coutinho, era informante e irmão do coronel Ronaldo Coutinho, que em 2004, confirmou que o coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação e um dos articulistas do AI-5, já tinha acertado com Havelange a troca do comando técnico da seleção.

Saldanha não também queria ser usado: ele tinha absoluta confiança no potencial do seu time e sabia que o regime militar ia querer usar a conquista do tricampeonato, como tinha ocorrido nas partidas eliminatórias entre Honduras e El Salvador, usadas como pretexto para um confronto militar entre os dois países, em 1969, episódio que ficou conhecido como “A Guerra do Futebol”, que matou três mil pessoas.

Como consequência do seu posicionamento, o “João Sem Medo” acabou caindo, entrando no seu lugar Zagallo. Este, para agradar Médici, acabou convocando Dario, cortando o craque cruzeirense Dirceu Lopes. Mas, mantendo oito dos titulares de Saldanha e colocando três dos seus reservas, Zagallo confirmou a confiança que João tinha no seu time e ganhou o tricampeonato, vencendo todos os jogos. Para muitos analistas, o maior time de futebol da história (Carlos Alberto, Piazza, Clodoaldo, Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivellino, entre outros). A ditadura, como também João previa, faturou horrores politicamente com a conquista: Médici se popularizou e se tornou uma pessoa frequente nos estádios de futebol, nos jogos da seleção, do Grêmio e do Flamengo.

O pós-Copa: da euforia à crise do regime militar com consequências no selecionado nacional (julho de 1970-1978)

Em junho 1970, no embalo da participação brasileira na Copa do México, foi criada a Loteria Esportiva. Um jogo de azar, cujo o “banqueiro” era o governo federal. Saldanha, já de volta a sua trincheira de jornalista, criticou profundamente o jogo, apontando que o mesmo ajudaria a tirar o torcedor mais humilde dos estádios, que preferia apostar na loteria, a comprar um ingresso mais popular. Na verdade, a “loteca” era uma forma de vender o sonho de prosperidade para os excluídos no Brasil do “Milagre Econômico”.

No ano seguinte, foi realizado o I Campeonato Brasileiro, buscando envolver todo o território nacional: o futebol era cada vez mais utilizado como forma de anestesiar as grandes massas populares. Novos estádios foram construídos: o Rei Pelé, em Alagoas, o Fonte Nova, na Bahia, o Castelão, no Ceará, o Serra Dourada, em Goiás, o Vivaldão, no Amazonas e o Mangueirão, no Pará etc.

Em 1972, João Havelange, de olho na presidência da FIFA e nos negócios que ela poderia proporcionar, convenceu o regime militar para a realização da Taça da Independência, a Mini-Copa, com o objetivo de comemorar os 150 anos da independência. A ditadura,, voltada para o extermínio dos últimos guetos da luta, pretendia manter a sensação criada com a conquista do tricampeonato viva e concordou com Havelange. De certa forma, os idealizadores conseguiram o seu intento: mesmo não jogando bem, o Brasil ganhou o torneio. Havelange também conseguiu cabalar bastante votos de países africanos e centro-americanos (representados na competição por seleções continentais) para a sua campanha para a presidência da FIFA.

Em seguida, o governo militar e os dirigentes do futebol brasileiro procuraram, pela primeira vez, apostar na conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas de Munique. O fracasso retumbante na primeira fase da competição foi o aviso do que poderia ocorrer dois anos depois na Copa a ser realizada no mesmo país. Entretanto, o que mais chamou no selecionado olímpico brasileiro foi a não convocação do jogador que o classificara na competição: Zico. Trinta anos depois se saberia os reais motivos da não convocação do atleta do Flamengo: ele era irmão de Nando Antunes e primo de Cecília Coimbra, que tinham sido presos políticos da ditadura brasileira.

Na X Copa do Mundo, na Alemanha Ocidental, em 1974, apesar da excelente safra de jogadores, o Brasil jogou com medo. Zagallo deixou o craque palmeirense Ademir da Guia no banco e sequer convocou Zico, já o melhor jogador do Campeonato Brasileiro daquele ano, talvez pelos mesmos motivoss que o levaram a não ser chamado nas Olimpíadas. A concentração brasileira era cercada militarmente, com receio de que ocorresse com os jogadores brasileiros, a matança que vitimou atletas israelenses, nos jogos de Munique. Tanto medo que o futebol brasileiro, após uma campanha medíocre, foi suplantado pelo futebol total do Carrossel holandês, de Cruijff e companhia. Estes, entretanto, perderam a final para a Alemanha Ocidental de Beckembauer.

Havelange não se preocupou com o revés, pois conseguira o seu intento: ser eleito presidente da poderosa FIFA. Entre o inglês Stanley Ross, que tentava a reeleição e que defendia uma Copa do Mundo com somente com oito países em um movimento contrário à internacionalização do Capital, e outro que prometia aumentar o número de participantes, vingou o último. Havelange antevia que as competições patrocinadas pela FIFA, desde que ampliassem os seus participantes, poderia atrair muito Capital, como o de cervejarias, fabricantes de material esportivo, indústrias de refrigerante, bancos etc, ávidos por novos mercados consumidores. Em pouco mais de duas décadas, Havelange transformaria a FIFA em uma entidade com mais países filiados do que a ONU.

Entretanto, os militares, preocupados com o fim do “Milagre Econômico” e sem mais ver utilidade em ter o corrupto Havelange no comando da CBD, tiraram o mesmo do posto, em janeiro de 1975, colocando no seu lugar o almirante Heleno Nunes, presidente da ARENA (partido da ditadura) fluminense, Heleno Nunes começou a inchar o Campeonato Brasileiro: comentava-se que o lema do almirante era “onde a ARENA vai mal, um time no Nacional”.

Como a copiar a CBD, o Botafogo, clube fundamental para a conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil e o preferido por um setor considerável da crônica esportiva carioca (parte dela entricheirada no oposicionista Jornal do Brasil), passou a ter como presidente, em 1976, Charles Borer, irmão do policial Cecil do DOPS, o mesmo que baleou João Saldanha e Carlos Marighella.

Registre-se: mesmo com a presença da ditadura policial no futebol brasileiro, a safra de jogadores revelados naquele período ainda continuava excelente. Os campeonatos regionais atraíam mais interesse que o Campeonato Brasileiro, como demonstrou a comoção nacional causada pela final do campeonato paulista de 1977 ganha pelo Corinthians, ainda que a final do Brasileiro de 1975 (Internacional-RS e Cruzeiro-MG) e a invasão da torcida corintiana no Maracanã, nas semifinais do Brasileiro de 1976, tenham mobilizado a opinião pública do país.

Uma prova da grande força do mercado interno brasileiro é que a seleção nacional, nos preparativos para a XII Copa do Mundo que ia ser realizada na Argentina em 1978, disputou uma Copa America com uma seleção mineira e entre os seus jogos amistosos para o Mundial, intercalando com amistosos e competições internacionais, jogou também com dois combinados de clubes brasileiros e com sete selecionados regionais.

Mas, apesar de afastado da CBD, Havelange continuava um homem de confiança do regime militar: o Brasil participava da Operação Condor, envolvendo principalmente as ditaduras argentina, uruguaia, chilena e paraguaia e ele estava em um posto chave. Segundo denunciou o ponta-direita brasileiro na Copa da Argentina, “Búfalo” Gil, o presidente da FIFA, em preleção aos jogadores brasileiros, disse que ficaria satisfeito se a Argentina fosse campeã mundial pela primeira vez. Assim, Havelange cerrava fileiras com a Argentina do general Videla contra a campanha internacional puxada pelo craque holandês Cruijff de boicote ao certame. Consequentemente, Cruijff se recusou a particpar da Copa.

O desejo de Havelange acabou se confirmando: com uma seleção com um regime de caserna (jogadores considerados rebeldes como Paulo Cézar Caju, Marinho e Falcão, não foram convocados) e novamente com um comando militar (cujo treinador era o capitão Claudio Coutinho e que acabou perdendo a direção do time para o almirante Heleno Nunes, que barrou três jogadores na terceira partida), o Brasil, apesar da muito boa qualidade dos seus jogadores, assistiu paralisado o arranjo entre as ditaduras da Argentina e Peru, no jogo entre esses países, que o tirou do páreo. A Argentina de Kempes se tornaria campeã mundial em cima da Holanda. E os militares argentinos, com o aprendizado adquirido com a ditadura brasileira, capitalizaram horrores com a conquista.

Havelange também estava satisfeito por outro motivo: foi a Copa onde ele deixaria, pela primeira vez, a sua marca: quase todas as 16 seleções participantes tinham os fornecedores de material esportivo não somente nas chuteiras, mas agora estampados também nas camisas e calções, seja da Adidas, seja da Puma, empresas da família Dassler, outrora fornecedora de calçados para os nazistas.

Transição militar-civil no Brasil e no comando do futebol brasileiro e a seleção de Telê (1979-julho de 1982)

Mesmo exterminando toda a oposição armada e parte da oposição civil, o regime militar brasileiro vivia a sua última fase, espremido pela crise do endividamento externo (que aumentara bastante desde 1964) e pela retomada das lutas sociais. Nas eleições parlamentares de 1978, o governo fora novamente derrotado. A saída de “inchar o Campeonato Nacional” (começara com 26 clubes, em 1971 e estava com 94, em final dos anos setenta) jogava mais crise no futebol brasileiro, a válvula de escape preferida do regime. Como resultado, a seleção brasileira ficou em um modesto 3º lugar na Copa America de 1979 e três dos principais clubes paulistas (Santos, Corinthians e São Paulo) boicotaram o Brasileiro daquele ano, em função de briga com a poderosa Federação Paulista do Futebol, agora dirigida por Nabi Abi Chedid, também da ARENA e correligionário de Heleno Nunes.

Era necessário repaginar a combalida CBD, assim como os velhos partidos (ARENA e MDB) foram repaginados pela reforma partidária da ditadura, na virada da década de setenta para oitenta. Surgia a Confederação Brasileira de Futebol, um campeonato brasileiro com primeira e segunda divisões, sendo o principal “somente” com 40 clubes. A discussão de empresariamento do futebol brasileiro vinha com força, através principalmente de Márcio Braga, presidente do Flamengo, que dera sorte de estar no clube rubro-negro, no momento em que se colhia os excelentes resultados obtidos de anos de investimento nas divisões de base, anteriores a Braga, que redundaram em um elenco ímpar. A revista PLACAR, principal publicação esportiva do país (e outrora reduto de jornalistas esquerdistas muito deles vinculados ao PCB), através do seu jornalista responsável Juca Kfouri, reforçava a campanha pelo empresariamento do futebol, de publicidade de empresas na camisa e de televisamento dos jogos.

Mais uma vez, uma das única vozes dissonantes foi a do jornalista João Saldanha. Ele chamava atenção de porque era contrário a qualquer publicidade, mesmo de material esportivo. Alertou ele, profeticamente: “Daqui a pouco, você vai torcer por um balancete contra o outro”. A discussão de publicidade impunha, obviamente, o televisamento. João era contrário qualquer televisamento, inclusive o vídeo-tape do jogo e “os melhores momentos“. Sua solução passava pela presença do povo nos estádios. Para ele o futebol era a principal manifestação cultural brasileira, era preciso saber valorizá-la. Equivocadamente, entretanto, Saldanha defendia que o ingresso brasileiro nos estádios era extremamente barato e que deveria ser majorado para enfrentar o assédio de clubes estrangeiros aos jogadores brasileiros.

O comando militar no futebol brasileiro foi trocado: saiu o almirante Heleno Nunes da presidência da Confederação Brasileira e entrou o empresário e torcedor do America-RJ, Giulite Coutinho; no comando técnico, deixou o cargo o capitão Claudio Coutinho e assumiu o treinador palmeirense Telê Santanna. Aos poucos, também se preparava a transição militar-civil no comando do país. O símbolo da CBF na camisa do selecionado nacional acabou sendo trocado: a tradicional cruz de malta da CBD deu lugar a imagem da taça Julles Rimet. Agregado a ela, o discreto símbolo do Instituto Brasileiro de Café, o patrocinador da seleção, o raminho de café.

O Brasil continuava a produzir excelentes times e jogadores. Em 1981, o Flamengo reconquistava o título Mundial Inter-Clubes para o futebol brasileiro, após 18 anos, um torneio que andou desvalorizado nos anos setenta, mas que foi revitalizado pelo patrocínio da empresa montadora automobilística japonesa Toyota. Tudo parecia apontar para a conquista brasileira na XIII Copa do Mundo a ser realizada na Espanha, em 1982, a primeira que contaria com 24 seleções: Havelange cumpria assim sua promessa com as federações esportivas dos países que o elegeram e a FIFA ampliava os seus negócios.

Entretanto, reproduzindo o autoritarismo vigente, Telê evitou convocar jogadores polêmicos ou de opinião forte (os goleiros Leão do Grêmio e Raul do Flamengo e os atacantes Reinaldo do Atlético Mineiro, Tita do Flamengo e Mário Sérgio do São Paulo), e, pela primeira vez na história, a seleção brasileira convocou dois jogadores para a Copa que atuavam em clubes do exterior. Telê Santanna, com alguma razão, apostou unicamente na excelência da maioria dos seus jogadores do seu elenco (Leandro, Júnior, Cerezo, Sócrates, Falcão, Zico e Éder, principalmente). A seleção brasileira ganhou, como na Copa de 1970, a confiança popular foi retomada e as ruas das cidades foram pintadas e enfeitadas

Quase todas as apostas de Telê deram muito certo, com exibições de gala, até o confronto com a Itália de Paolo Rossi. Depois de dois anos suspenso por envolvimento com a máfia da loteria esportiva italiana, o atacante italiano foi decisivo para eliminar o futebol arte do Brasil (que só precisava do empate) e conduzir a seleção italiana e seu futebol pragmático ao título mundial. Para alguns, a derrota da seleção brasileira de Telê (com o seu capitão contestador, o carismático e polemizador Sócrates) simbolizou, naquele momento, a derrota de um projeto autônomo de nação brasileira e da sua própria identidade.

O fim do regime militar, a decepção com a “Nova República” e a derrota histórica do futebol arte brasileiro (agosto de 1982 a julho de 1986)

Após a derrota na Copa, que o regime militar esperava capitalizar, abriu-se um dos períodos mais conturbados da história da sociedade e do futebol brasileiro. Neste último, a denúncia explosiva da revista Placar sobre o funcionamento da Máfia da Loteria brasileira no ano de 1982, reproduzindo o que tinha sido o Totonnero italiano, dois anos antes. Ao mesmo tempo, a revista dava destaque a experiência inovadora da “Democracia Corintiana”, comandada por Sócrates, Casagrande e Vladimir, que foi embalada pela clima contestador que existia no país (muitas e greves e lutas contra o arrocho salarial e o desemprego) e pela multitudinária campanha das “Diretas, Já”, que encurralou o regime militar, mas que acabou sendo derrota em função dos acordos envolvendo governo e “oposição”.

A publicação também fazia reportagens onde chamava atenção de que crescia nas torcidas dos grandes clubes brasileiros, o fenômeno dos hooligans ingleses e dos barra-bravas argentinos: produto da crise econômica, torcedores desempregados, que viravam “profissionais”, e uma juventude sem referências, em nome da “paixão” por um clube, tinham práticas fascistas nos estádios.

Como reflexo do que ocorria no comando do país (a transição negociada de poder do general Figueiredo para Tancredo Neves e José Sarney, representantes da “Nova República”), a seleção brasileira também trocou seguidas vezes de comandantes (Carlos Alberto Parreira, Edu Antunes e Evaristo Macedo). Até que na iminência de eliminação nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1986, a direção do futebol brasileiro trouxe novamente para o comando técnico do selecionado brasileiro Telê Santanna, atendendo a um verdadeiro clamor popular: o torcedor não tirava da memória o time de 1982, apesar da derrota. Em meio a crise, acendeu-se a esperança popular na seleção, assim como o Plano Cruzado fortaleceu, por alguns meses, a Nova República.

A própria realização da XIII Copa do Mundo foi uma crise só: a Colômbia desistiu do patrocínio, em 1982, em função, entre outras coisas, da guerrilha interna, que ganhou novo fôlego com a vitória da revolução sandinista na Nicarágua, três anos antes. O México foi novamente indicado como país anfitrião, porém foi sacudido por um violento terremoto e chegou-se a cogitar a troca, mais uma vez, do país sede. Em função disso tudo, foi a última Copa do Mundo em que se permitiu, contraditoriamente, alguns improvisos e imprevistos, sem o total controle das grandes corporações.

Telê conduziu a seleção brasileira – novamente com dois jogadores de clubes do exterior – com os seus defeitos pessoais (“cortou” os rebeldes Éder e Renato Gaúcho e, por tabela, o lateral Leandro). Mas, manteve os seus méritos, procurando ficar fiel ao espírito do futebol arte da seleção de 1982 e aos seus craques (Júnior, Sócrates, Falcão e Zico), mesmo envelhecidos. Dessa forma, o treinador conseguiu chegar, vencendo (mas não convencendo) todos os jogos, às quartas de final da Copa e enfrentou uma França tão talentosa, como envelhecida.

No maior jogo de todos os tempos da história do futebol, o Brasil, injustamente, acabou sendo eliminado, na disputa de pênaltis pela França. Foi a DERROTA FINAL DO FUTEBOL ARTE, que ele, Telê, personificava. Em seguida, a França de Platini foi eliminada pela Alemanha de Rumenigge, que acabou perdendo, justamente, a final para a Argentina do gênio Maradona. O torcedor brasileiro acabaria por se tornar mais pragmático: de que adiantava jogar bonito e não ganhar? Da mesma forma, o fracasso do Plano Cruzado, alguns meses depois, fez fenecer a confiança na “Nova República”, que de nova não tinha nada.

A partir da XIII Copa do Mundo, o selecionado brasileiro, como uma expressão de uma identidade nacional, foi-se desintegrando e virando outra coisa e o futebol e o Mundial de seleções foram ficando cada vez mais a mercê dos interesses das grandes corporações. É o que analisaremos, em seguida.

*Militante do Movimento de Organização Socialista e torcedor do Flamengo