Contra o aumento da tarifa, o transporte tem que ser público!


4 de Fevereiro de 2018

O transporte público e a mobilidade urbana são problemas bastante recorrentes nos países periféricos do capitalismo – como é o caso do Brasil (como tratamos no Jornal 69 do Espaço Socialista).

Isso ocorre devido ao caos urbano e a lógica irracional do capital de distâncias exorbitantes entre a nossa casa e o nosso local de trabalho ou entre a nossa casa e o nosso local de estudo. Assim, esse serviço se torna algo essencial para a juventude pobre e para a classe trabalhadora, ou seja, para aqueles que necessitam diariamente do transporte coletivo público para se locomover pela cidade.

Para o Estado e para os donos das empresas de transporte coletivo, seja de ônibus, de transportes sobre trilhos ou até mesmo aquaviários, as pessoas transportadas são como mercadorias, portanto, quanto mais pessoas, quanto mais mercadorias, transportarem dentro de um mesmo veículo e espaço de tempo, maior o lucro.

Cada catraca rodada significa mais dinheiro no bolso do patrão e, consequentemente, menos no nosso bolso. Para eles, quanto mais o busão estiver lotado, melhor, é mais lucro, mais catraca girada e mais tarifa paga. Nas grandes cidades, metrópoles e megalópoles isso fica bastante claro.

Os transportes funcionam apenas de dia com o objetivo de levar a maioria dos trabalhadores para venderem sua força de trabalho nas empresas. À noite, quando a maioria das empresas estão fechadas, os transportes coletivos também fecham. Assim, quem precisa pegar um busão ou qualquer outro tipo de transporte coletivo à noite tem que esperar o dia amanhecer para poder ir onde quiser. Para o capital, só importa garantir o transporte da maioria das pessoas para os seus locais de trabalho, para se divertirem não.

A juventude precisa de passe livre

Para a juventude da periferia, que muitas vezes não trabalha e nem estuda, seja porque não consegue entrar ou pagar uma universidade, seja porque foi demitido do último emprego, isso é ainda mais grave. Vivem num regime de apartheid e segregação total. Simplesmente não podem sair da periferia porque não tem grana para pagar a tarifa. Só podem ir ao centro da cidade para procurar trabalho ou para trabalhar. E quando procuram uma forma de diversão na periferia são reprimidos pela polícia.

Na crise que vivemos, com milhões e milhões de desempregados, praticamente 1 a cada 4 brasileiro, nem mesmo quem está procurando emprego tem um desconto, pelo contrário, muitas vezes não podem ir sequer entregar currículo porque não tem o dinheiro da passagem.

Quase todo ano vemos os governantes reajustando as tarifas dos transportes e aumentando, cada vez mais, a quantidade de pessoas que não podem pagar pela tarifa.

Para se ter ideia de como a tarifa é excludente, segundo uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo divulgada em 2017, por conta do preço da tarifa, 52% das pessoas já deixaram de visitar a família, 48% já deixaram de ir ao médico e 28% já deixaram de ir à escola.

Em 2013 ocorreram vários protestos pelo país, com participação ativa da juventude e, pela primeira vez, conseguimos barrar o aumento das passagens em mais de 50 cidades. Isso aconteceu porque as manifestações foram grandes e ocorreram em todos os cantos do país. Depois disso conquistamos o passe estudantil em algumas cidades, mas a cada ano tem sido mais difícil avançar na luta devido à crise, aos ajustes e aos cortes de direitos.

Os poucos serviços públicos, como o Metrô, estão sendo sucateados, privatizados e vendidos a preço de banana. O passe estudantil tem sido cada vez mais restrito. Até mesmo os idosos com mais de 60 anos estão perdendo o direito de pegar o busão de graça. A tarifa aumenta, linhas são cortadas e os ônibus permanecem a mesma coisa.

Tudo isso ocorre sem um grande movimento de resistência por parte da população, ficando fácil para os patrões e governantes fazerem o que quiserem. Parece aquela música Admirável Gado Novo:

Ê, ô, ô, vida de gado

Povo marcado, ê!

Povo feliz

Mas nós sabemos que lá no fundo nenhum trabalhador que pega o transporte coletivo lotado e precário todos os dias aceita essa condição a que somos submetidos.

Por isso, se quisermos manter o mínimo de direitos que conquistamos e avançar ainda mais, por um transporte público, gratuito, de qualidade e controlado pelos trabalhadores (inclusive com a definição dos itinerários, etc.), devemos nos organizar e lutar contra todas essas medidas que nos atacam. Defendemos o transporte realmente público, em que não seja o lucro que determine itinerários, valor de passagem e condição de uso, defendemos um sistema de transporte coletivo sob controle dos trabalhadores.

Existem várias formas de resistência, que vão desde a não facilitação do troco e os catracaços (pular a catraca), às grandes manifestações contra a tarifa e contra a mercantilização do transporte e das nossas vidas! O transporte não pode ser um meio de realização de lucros pelos capitalistas.

Também é importante participar dos comitês e coletivos que organizam as lutas contra o aumento, pela redução das tarifas rumo a tarifa zero e pelo passe livre irrestrito para jovens e desempregados, sempre visando a unificação das lutas num movimento político dos trabalhadores, o que só pode ocorrer através da unidade dos trabalhadores dos transportes com os demais trabalhadores e estudantes mobilizados.