Vidas na Somália: quem liga?


13 de novembro de 2017

No último dia 14 de outubro, duas explosões provocadas em Mogadíscio, capital da Somália, mataram mais de 350 pessoas e deixaram mais de 100 feridos. Eram áreas de intenso movimento, próximas ao Ministério de Relações Exteriores e da Universidade Nacional Somali. O atentado foi reivindicado pelo grupo jihadista Al Shabab, ligado à Al-Qaeda. Em termos de números de vítimas, foi o pior atentado desde julho de 2016, quando uma série de ataques a bombas matou mais de 320 pessoas em um mercado de Bagdá.
Toda a gravidade do fato não foi suficiente para romper o silêncio da mídia corporativa burguesa, tampouco para promover a comoção que os casos mais recentes de atentados causaram como o de “Charlie Hebdo” em Paris ou os ocorridos em Nice, Barcelona, Manchester e Las Vegas. O silêncio, o desprezo e a indiferença repetem-se como no atentado da Nigéria em 2015, em que a morte de 111 pessoas negras sequer penetrou as redes sociais.
Este comportamento social nas mídias põe em evidência aquilo que a passividade em torno do genocídio do povo negro no Brasil também nos revela: a morte e o sofrimento de gente pobre e negra são tidos como normal, naturalizam-se como um fardo a ser carregado Ad eternum.
O corte étnico-racial reproduzido pela mídia corporativa reforça a ação intencional da burguesia em aprofundar a desigualdade racial e, desta forma, aproveitar-se para pagar salários mais baixos e aumentar a taxa de exploração em cima de quem, no Brasil, representa mais da metade da população.
O racismo se integrou à sociedade capitalista como uma luva e, com a intensificação da crise estrutural do capital, se reproduz também com intensidade em todas as esferas da sociedade. O preconceito racial interessa à reprodução do capital e aos níveis de extração de mais-valia exigidos para manutenção ou retomada de taxas de lucro para a classe dominante.
Mas, a questão não se encerra aqui. Na forma de sociabilidade capitalista, a vida humana importa enquanto capacidade de trabalho a ser vendida no mercado. O aprofundamento da crise estrutural, no entanto, faz com que a autorreprodução do capital se torne cada vez mais degenerativa, destruindo as próprias bases constitutivas que dão vitalidade ao sistema e a capacidade de desenvolver as forças produtivas: as formas de existência humana e a natureza estão em ruínas.
Não há solução, dentro dos marcos do capital, para o agravamento das contradições ampliadas geradas e o que temos é a ejeção de parcelas da população planetária como população supérflua, isto é, pessoas que não interessam ao capital como força de trabalho ou como mercado consumidor. O silêncio, a não comoção, a falta de solidariedade de que falamos também encontram suas bases aqui. Se vidas negras não importam, vidas negras antiprodutivas, muito menos.
Na Somália, o intervencionismo imperialista em torno da posição estratégica do país (proximidade ao Golfo Pérsico e ao Canal de Suez), promoveu um cenário político instável e um quadro social tão grave que metade de sua população – cerca de 6,7 milhões de pessoas – necessita de ajuda humanitária. Destas, 275 mil crianças sofrem de desnutrição aguda severa e o país corre o risco de ter decretado o seu terceiro estado de fome, situações ocorridas em 1992 e 2011.
Com a pior seca dos últimos anos e grande parte de sua produção de alimentos voltada ao mercado internacional, as migrações internas estão deslocando parte considerável da população para a região norte do país em busca de água potável e alimentos. Ali, 739 mil pessoas vivem em campos de refugiados, dormindo em tendas e em condições extremamente precárias de vida. Como as previsões não são boas e o estio tende a se prolongar, a situação nutricional e o acesso à água potável vão se tornando ainda mais graves.
Além disso, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, uma epidemia de cólera e diarreia ceifou a vida de centenas de somalis e nas áreas superpovoadas dos campos de refugiados a população sofre com um surto de sarampo.
A ingerência do imperialismo na região vem de longa data e o país, assim como ocorreu no Haiti, possui uma missão militar operando supostamente para combater o avanço do Al Shabab. Ainda este ano, o presidente estadunidense Donald Trump autorizou o envio de tropas e um ataque aéreo como “resposta” contra o terrorismo.

Toda solidariedade ao povo somali!

A ofensiva burguesa e imperialista vem assolando os trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo com subtração de direitos, rebaixamento brutal do padrão de vida, sucateamento dos serviços públicos, desemprego e privatizações. Em alguns países da periferia do sistema as consequências se tornam ainda mais perversas com as guerras, atentados, deslocamentos, doenças e a extrema penúria da imensa maioria da população.
Denunciamos a miséria capitalista, que mata e extermina em várias partes do mundo! Denunciamos o silêncio racista da mídia corporativa burguesa e a passividade com que trata o genocídio negro, que também ocorre em todas as partes do mundo!
Solidarizamo-nos com a vida do povo somali e pelo fim de suas mortes, também com todas as lutas que a classe trabalhadora vem travando pelo mundo!
É central enfrentarmos a ofensiva burguesa e imperialista! Necessitamos resgatar a concepção real e de prática internacionalista, isto é, de unidade e solidariedade das lutas da classe trabalhadora pelo mundo! Precisamos de organizações internacionais que coordenem e unifiquem mundialmente as lutas dos trabalhadores em âmbito global! Globalizar a luta contra o capital para fazer avançar a consciência de classe, socialista e revolucionária!