Desigualdade, racismo e machismo contra as mulheres negras


13 de novembro de 2017

A mulher negra, no Brasil, tem sofrido muito com as duras consequências da crise estrutural, que além de retirar direitos e intensificar a exploração da classe trabalhadora de conjunto leva a retrocessos ainda maiores essa parcela.

A aprovação da Reforma Trabalhista e da Terceirização Irrestrita, no governo Temer, atingem profundamente a população negra e, em particular, as mulheres negras. E a aprovação da Reforma da Previdência não será diferente.

As mulheres negras e as consequências das Reformas

Hoje essa parcela da população já é a que possui a renda mais baixa. Embora tenha tido um crescimento significativo nos últimos anos, segundo o IPEA, ainda assim continua sendo a menor.  E possui também taxas de desempregos maiores. Tudo isso mesmo tendo aumentado os níveis de escolaridade das mulheres negras nos últimos dez anos, isto é, de 4,2 para 7,1 anos de estudo.

Com o acordado prevalecendo sobre o legislado, com a terceirização da atividade-fim, com a carteira assinada sendo substituída por contrato, etc. as mulheres negras arcarão ainda mais com a intensificação da precarização do trabalho.

E se a Reforma da Previdência for aprovada o caminho será o mesmo. Além de já começar a trabalhar cedo e trabalhar mais horas diariamente, as mulheres negras arcarão ainda mais com uma das consequências da precarização que é o aumento do trabalho informal, isto é, sem carteira assinada, o que dificultará ainda mais a contagem de tempo para sua aposentaria.

Quando levamos em consideração a expectativa de vida de 60 anos, levantada pelo IBGE, o tempo de trabalho necessário e os 49 anos de contribuição previdenciária para receber um salário integral na aposentadoria, podemos imaginar o quanto essa Reforma atingirá as mulheres negras e a sua qualidade de vida já que são a maior parte do setor mais precarizado.

Viver e lutar como expressões de resistência à violência capitalista

Não bastando esse tipo de violência institucionalizada em que governos, parlamentares e judiciário alteram as leis para favorecerem a exploração e a discriminação observada em cada um desses ataques e nos dados atuais, podemos ainda observar o aumento da violência machista e racista.

Segundo o Atlas da Violência 2017, o assassinato de mulheres negras subiu em 22% nos últimos anos. Todas essas informações comprovam a importância da resistência e das lutas travadas pelas mulheres e, especialmente, pelas mulheres negras para sobreviverem e de forma independente. E indicam ainda a necessidade de intensificação das lutas e da organização nesse próximo período. Menores salários e maior desemprego, mesmo tendo avançado na escolarização, demonstram o quanto o capitalismo reserva para parcelas da classe trabalhadora níveis ainda maiores de exploração necessitando, assim, se utilizar da discriminação, do racismo e do machismo para se reproduzir.

Nós, mulheres da classe trabalhadora, necessitamos reagir a tudo isso e precisamos nos fortalecer com a luta e a organização em cada local de trabalho, estudo e moradia para combater cada um desses ataques, impedir que essas várias formas de violência se intensifiquem e continuem tirando nossas vidas.

Essa tarefa deve ser também assumida por toda a classe trabalhadora para enfrentar os ataques dos patrões e dos governos, além de combater em seu próprio seio a discriminação, o racismo e o machismo que a cada dia são ainda mais assumidos por setores de nossa classe que colaboram com a classe que nos humilha, a burguesia.

Alguns dados das desigualdades

No acesso aos serviços públicos como Educação universitária, moradia, etc. e em todos os indicadores sociais, negros e negras estão sempre com os índices mais baixos.

A necessidade de trabalho desde jovem e a pobreza das famílias empurram os jovens negros para fora da escola. Isso faz com que as taxa de analfabetismo seja de 11,2% entre os pretos e entre os brancos seja de 5%. Para a população acima de 18 anos 62% da população branca conseguiu completar o ensino fundamental, já entre os negros é de 47%.

E no “mundo” do trabalho, os capitalistas, além de pagarem os salários mais baixos, criam um conjunto de relações que agravam ainda mais as desigualdades: A renda de negros é em média 56% daquilo que um trabalhador branco recebe. Os postos de trabalho oferecidos são os mais precários e degradantes mesmo quando negros e negras possuem alto grau de escolaridade. Sujeitam às maiores taxas de desemprego. Enquanto 10,3% de trabalhadores brancos estão desempregados sobe para 15,8% entre pretos e 15,1% entre pardos.

Na estrutura de cargos é disponibilizado apenas 6,3% na gerência e 4,7% no quadro executivo.

O mito da democracia racial

Nos Estados Unidos o racismo sempre foi uma política de Estado. Nos ônibus os negros não podiam sentar no banco da frente, eram proibidos de frequentar escola, eram proibidos de realizar manifestações, etc. Era um racismo direto, assumido.

Já no Brasil o combate ao racismo é uma das batalhas mais difíceis, pois é mascarado. Leis o proíbem e o discurso oficial é o de que há igualdade entre negros e brancos.

Por trás desse discurso tem um mito, construído há décadas, que serve só para esconder o racismo e merece ser desmascarado: de que vivemos em uma democracia racial.

É como se no Brasil convivêssemos de forma harmoniosa e pacifica entre as raças por conta da mistura e da miscigenação “voluntária” que não ocorreu em nenhum outro lugar do mundo.

Com isso a burguesia brasileira quer provar que não há diferenças entre as raças, que as oportunidades são iguais para todos e que o sucesso ou insucesso só depende da dedicação de cada. Dessa forma, faz o discurso do mérito para desconsiderar o processo histórico de exclusão da população negra desde a chamada abolição.

Contudo, no cotidiano, negros e negras vivem situações de racismo, de violências e de desigualdades como demonstram todos os indicadores.

Para lutarmos contra o racismo é fundamental o reconhecimento de sua existência. Por isso, a burguesia brasileira faz de tudo para escondê-lo e nós fazemos de tudo para mostra-lo! Queremos pôr fim ao racismo e a tudo que o sustenta!