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Jornal 97: Muros: a cidade não precisa de fronteiras


12 de Março de 2017

December 3, 2016

A função social do muro

Um dos traços mais marcantes do mundo contemporâneo é a forma de proteção à propriedade privada. Assim, como acontece nas demais sociedades de classe que compõem a história, a classe dominante precisa assegurar tanto a exploração econômica sobre aqueles que trabalham quanto o resguardo dos meios de produção e bens de consumo.

Atualmente, vemos espaços sociais sendo retalhados por cercas e muros que separam não-possuidores e possuidores, miséria e riqueza. Não se trata, sabemos nós, apenas de maneiras de demarcar terrenos e imóveis, mas de um modo de impedir acesso e o usufruto àqueles que pouco – ou nada – possuem além da própria força-de-trabalho para ser vendida.

“São tempos de roubos e invasões!”, desesperam-se à medida em que implementam cada vez mais medidas de (in)segurança: guaritas, vigias privados, cercas elétricas e câmeras de segurança alastram-se pela paisagem social tornando-se um elemento constitutivo de nosso dia-a-dia. Mas, se vivemos em tempos de democracia e liberdade, por que tantos muros?

Ainda que possamos elencar várias funções sociais – como a delimitação de terrenos, ou a preservação da intimidade em ambientes domésticos – que os muros possam cumprir no cotidiano, tem se tornado cada vez mais evidente seu papel instrumental na “defesa da propriedade privada e da vida dos cidadãos”.

Por se tratar de um sistema econômico que tem, em cada degrau de desenvolvimento galgado, níveis mais elevados de produção de riqueza combinado a uma, também crescente, desigualdade entre as classes, tem-se como uma das consequências mais diretas as cidades modernas como palcos de contradições cada vez mais manifestas. Quando temos esses dois componentes fermentados num meio social de estímulo ao consumo (através dos mais variados mecanismos de propaganda) e de aparência (ao se calcular o caráter das pessoas pela cifra que elas vestem, comem e dirigem) vislumbra-se o porquê de tanto medo, a razão de tantos muros.

Quando os muros dividem países

Nos últimos anos, a realidade vivenciada por imigrantes e refugiados veio à tona nos noticiários quando todo o mundo se abalou com a foto de uma criança síria morta foi encontrada nas margens do mar Egeu. Iniciou-se, então, uma ruidosa denúncia sobre as péssimas condições de (sobre)vivência dessas pessoas, logo seguida por um acalorado debate que buscava decidir sobre a dignidade, ou não, dessas vidas marcadas pelo deslocamento de suas terras natais.

Em nobre tentativa de disfarçar sua crônica indiferença aos recém-chegados – marcados por um maior empobrecimento e vulnerabilidade, mesmo perante os setores mais marginalizados da classe trabalhadora dos próprios países – governos europeus lacrimejaram discursos de piedade e indignação frente aos atrozes acontecimentos.

Enquanto celebravam a caridade – no acolhimento, construção de campos de refugiados e no provimento de bens básicos – arquitetavam muros para impedir novos fluxos migratórios, e outros para isolar os contingentes já abrigados nesses países.

Embora não seja um fenômeno recente – como exemplos, as fronteiras físicas erguidas entre Cisjordânia e Israel, Espanha e Marrocos, Grécia e Turquia – é notório o crescente afã que, desde então, a política internacional tem tido por essa forma de “solucionar” o problema da imigração.

Há alguns meses, o primeiro-ministro húngaro anunciou a ampliação da “linha de defesa” que já separava seu país da Sérvia como modo de reduzir a entrada de refugiados que rumavam a países como Áustria, Suécia e Alemanha (que, só em 2015, foram 400 mil). Pouco depois, o governo britânico declarou que seria construído um muro de quatro metros para coibir o trânsito de pessoas dos acampamentos de Calais (território no norte da França) habitados por refugiados do Oriente Médio e do Norte da África. Em novembro do ano passado, um centro de refugiados na cidade de Munique foi presenteado, antes mesmo de ser finalizado, com uma estrutura de concreto que o separara de um distrito residencial sob o convincente argumento de que “evitará contaminação acústica” por crianças e jovens que se alojarão no local. Há algumas semanas, o novo presidente estadunidense deu ordem para que fosse erguido um muro ao sul do país para impedir a travessia de mexicanos, sob o pretexto de “salvar empregos e bolsos de contribuintes”, num discurso que – temerosamente – nos traz a recordação de uma das mais sombrias páginas da história do século XX.

Romper os muros e outras amarras

Sendo um modo de produção fortemente distinguido por seu caráter expansivo, o capitalismo nunca hesitou, ao longo de seu percurso, em reafirmar seu cosmopolitismo: a tendência à mundialização faz parte de sua incessante necessidade de ampliação de lucro, com o aprofundamento das formas de exploração de trabalhadores (sejam nativos ou estrangeiros), estejam eles dentro ou fora do país. O dinheiro sempre perambulou livre e sorridente pelos países, cruzando quaisquer fronteiras.

É no mínimo curioso observar que – num período histórico em que a financeirização encontra-se em pleno desenvolvimento, as economias dos países periféricos estejam tão bem subordinadas aos interesses das nações do capitalismo central – esse tipo chauvinismo ganhe tanta expressão.

O cinismo maior da questão reside, principalmente, no fato de que parte dos países que têm institucionalizado políticas xenofóbicas sejam, justamente, aqueles que, além de mais terem se apropriado de recursos naturais em outras terras ao longo da história, mais perpetraram as modalidades doentias da exploração de estrangeiros.

A sistemática disseminação da xenofobia, do racismo e das demais expressões de ódio e rejeição aos trabalhadores estrangeiros têm sido uma silenciosa, mas poderosa, arma das burguesias nacionais. Lançando mão tanto dos meios de comunicação tradicionais, quanto dos mais contemporâneos (como as redes sociais) os setores mais chauvinistas da direita têm proporcionado uma maior fragmentação da resistência e dos enfrentamentos da classe trabalhadora.

Na medida em que enxerga a deterioração de suas condições de vida como sendo ocasionada pela “presença indesejada” de imigrantes e refugiados, as classes trabalhadoras desses países recaem no enfraquecimento de seu poder de confronto político com a ordem vigente. As lutas das trabalhadoras e trabalhadores não têm nacionalidade! Confrontemos o domínio político e econômico dos proprietários dos meios de produção! A luta contra o capitalismo é a luta contra as pátrias, muros e suas fronteiras!