Desde março de 2019 o Espaço Socialista e o Movimento de Organização Socialista se fundiram em uma só organização, a Emancipação Socialista. Não deixe de ler o nosso Manifesto!

Jornal 96: O moralismo na questão da organização revolucionária


29 de Janeiro de 2017

Um diálogo com Sérgio Lessa 1

As importantes contribuições de Sérgio Lessa para o Jornal Espaço Socialista discorrem com muito domínio sobre questões que inquietam, especialmente, a juventude na realidade atual. São temas que sempre foram muito relevantes para os movimentos de esquerda e que vêm suscitando muitos questionamentos ou curiosidades de 2013 para cá.

No Jornal Espaço Socialista nº 95 contamos com seu texto A Questão da Organização Revolucionária e o Movimento Anarquista e é sobre o moralismo na questão da Organização (também subtítulo no texto) que queremos aqui dialogar.

Para tratar da questão do que é uma Organização ou das propostas de Organização para a luta revolucionária apresentadas pelo Anarquismo, o autor estabelece no texto uma contraposição com Marx, Engels, Rosa e Trotsky.

Em certo sentido, todo esse debate ao longo do texto, remetido à questão da Organização em si, podemos dizer que ainda está em aberto, embora compreendamos que a finalidade da Organização é historicamente construída e além de “acumular revolucionariamente forças nas lutas de classe em andamento”, deve também buscar contribuir para o avanço da consciência e luta socialista.

No entanto, quanto à “seleção dos militantes” seja para “um instrumento para luta de classe imediata” ou para o “germe prático e teórico, político e moral de uma nova sociedade liberta” há de se fazer algumas ponderações.

Esta “seleção” não se dá a priori determinada pela moral, pois não se trata de relações familiares da sociedade burguesa, se dá pela aproximação e concordância com aspectos políticos e programáticos considerando o atual momento das lutas em andamento, na sociedade de classes. E aqui as referências podem ser as mesmas: Marx, Engels, Rosa Luxemburgo e Trotsky e os Anarquistas.

E se considerarmos as críticas às relações de propriedade e às relações familiares, com a compreensão de que o privado é político, podemos dizer que um certo moralismo acompanha a escolha dos exemplos dados ao apresentar apenas como algo moral e com um grau de igualdade o “machismo empedernido” e o “adultério” (podendo aqui, inclusive, acrescentar o próprio exemplo de Rosa)2.

O adultério, praticado por ambos os sexos e, como já dito por Alexandra Kolontai, conflito amoroso da sociedade “guardiã do capital acumulado” relacionado diretamente à vida privada, é condenável pela moral burguesa, mas é também cultivado.

Nesse sentido, é considerado imoral porque desfaz a unidade básica do matrimônio (necessário para manter a riqueza concentrada e não dispersa com possíveis filhos fora do casamento) e ao mesmo tempo é cultivado para manter sob limites o direito de pessoas se relacionarem e também questionarem as tradições. O adultério nasceu com a burguesia e, para muitos, é parte da crise sexual do mundo burguês e de sua moral.

Isso não significa que deva ser proclamado ou expurgado como dever moral na sociedade burguesa. Significa que em todas as esferas da vida, inclusive, as várias formas de relações pessoais na sociedade do capital precisam ser superadas e qualquer camarada “admitido”, inicialmente ou não, na Organização necessita despertar, no diálogo com a classe, a ânsia em pôr abaixo as bases da propriedade privada que assolam as relações de camaradagem, solidariedade e companheirismo, impõem o individualismo exacerbado e a propriedade de um sobre o outro.

E é exatamente esse tipo de relação sob as bases da propriedade que tem cada vez mais exigido da mulher, não do homem, que se mantenha no padrão “bela, recatada e do lar” coberta por um véu de pureza, que lhe é covardemente arrancado quando assim não se apresenta ou quando resolve adotar também o adultério, prática hipocritamente recusada por esta sociedade. Esse momento, inclusive, que mais tem contribuído para que os índices dos vários tipos de violência contra a mulher não deixem de subir, especialmente de assassinatos.

Essa realidade, com toda a sua atualidade, necessita de ações práticas e teóricas, o que não significa a crença em reformas substantivas. Ou, corre-se o risco desses homens e mulheres, cada um em seu tempo, insistirem em demonstrar suas fragilidades e erros por trás da teoria e não a necessidade de buscar colocá-la em prática em sua essência.

Aqui restringirmos os exemplos dados, tomamos como referência o que podemos considerar, no mínimo, como uma contradição: Marx ao escrever toda a sua obra – base fundamental para lutarmos por uma outra sociedade e, em especial, um artigo como o Sobre Suicídio (Boitempo, 2016), que denuncia a opressão contra as mulheres vítimas do patriarcado e da tirania familiar e do absoluto poder do homem sobre a esposa para manter a propriedade privada – reproduzir ao longo de sua maturidade essas mesmas relações.

E a questão que se coloca não pode ser se era capaz ou não de criar outros tipos de relações. A questão colocada é que, de fato, um outro regime social ainda não estava colocado. No entanto, não significa abrir mão de subverte-lo em todas as suas esferas, inclusive, no âmbito das relações pessoais para reafirmar a camaradagem, solidariedade e companheirismo de classe. Tão pouco estagnar-se em pleno século 19 já que consideramos “historicamente mutável os relacionamentos humanos”.

Diferente do adultério em si é o machismo empedernido, que atravessa a sociedade como um todo, apresentável das mais variadas formas e práticas, que trazem em si diferentes tipos e níveis de violência contra a mulher para impor autoridade (submeter e subordinar), para decidir sobre o corpo, sobre o prazer e, até mesmo, sobre o momento em que deverá deixar de viver.

O patriarcado – regido por esse poder, pelo medo e pelo casamento monogâmico – institucionalizado pelo Estado que dissemina ou mantém essa violência necessária aos ditames do capital, não pode ser mascarado e tão pouco enfrentado sem a unidade de homens e mulheres que “produzem o conteúdo material de toda riqueza social”.

Para tanto é fundamental insistirmos hoje, conforme muito bem indicado por Saffioti3, que a desigualdade, a violência e a intolerância não são inerentes ao ser social. Portanto, passíveis de serem superadas.

Nesse sentido, não é possível mantermos como algo invisível os índices que expressam essa violência por todo o mundo e que o Brasil mantém: estima-se que devem ter ocorrido entre 129,9 mil a 454,6 mil estupros no país em 2015, o que significa dizer que mais de cinco pessoas são estupradas por hora no Brasil.4 Houve um crescimento de 11,6% da taxa de homicídios de mulheres entre 2004 e 2014, o que se traduz em treze mulheres assassinadas por dia no Brasil.5 As mulheres também sofrem com a ausência de oportunidades no mercado de trabalho: a menor taxa de desemprego corresponde à dos homens brancos (5%), ao passo que a maior remete às mulheres negras (12%). No intervalo entre os extremos, encontram-se as mulheres brancas (9%) e os homens negros (7%).6

E na possibilidade da visibilidade, com a compreensão de que a Organização cumpra o papel de contribuir para a educação e superação dessas relações junto a classe que produz o conteúdo material da riqueza, é imprescindível que todos e todas se reeduquem diante das lutas necessárias num momento de crise estrutural cada vez mais profunda.

Isso requer, desde as reivindicações básicas para sobrevivência e para se manter viva, o que não pode ser o mesmo que oportunidades iguais, até a possibilidade de caminhar no sentido de “liberação das mulheres centrada na igualdade substantiva, que não encontra saídas para sua realização dentro dos limites do sistema do capital7” e para isso não pode haver espaço para a insistência do machismo empedernido, ou realmente pouco se questiona o “âmago do sistema dominante de reprodução sociometabólica” e seus limites absolutos.

Portanto, o machismo empedernido não é algo moral ou imoral como referência da moral burguesa, é a reprodução concreta e sistemática dos ditames do capital às relações pessoais, sustentado pela classe que produz o conteúdo material de toda riqueza social e demais assalariados, encoberto hipocritamente pela burguesia e capaz de fascinar mentes brilhantes atraídas pelo comodismo ou imobilismo e pela vida “facilitada” por mulheres.

Assim, é imprescindível para o nosso tempo fortalecer as lutas em andamento e a consciência socialista com a “práxis revolucionária” para que mulheres e homens encontrem sentido em trilhar os caminhos para a sociedade socialista sem que interrompam os passos para enfrentarem, entre nós, além de todos os problemas enfrentados por estarmos juntos com a nossa classe, os descaminhos de práticas tão cruéis.

1 Referente ao texto A Questão da Organização Revolucionária e o Movimento Anarquista, publicado no Jornal Espaço Socialista nº 95 – nov/dez 2016.

2Luxemburgo Rosa. Camarada e Amante: Cartas de Rosa Luxemburgo a Leo Jogiches. Rio Janeiro: Paz e Terra, 1983. Rosa abandonou Jogiches porque passou a gostar e resolveu morar com Konstantin Zetkin.

3 Saffioti, Heleieth. Gênero, Patriarcado, Violência. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

4 Segundo mostra o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

5 Dados do Atlas da Violência de 2016, uma publicação do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

6 De acordo com a 4ª Edição da Revista Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, uma publicação conjunta do Ipea, ONU Mulheres, Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM e Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR

7 Mészáros István. Para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2002.