Desde março de 2019 o Espaço Socialista e o Movimento de Organização Socialista se fundiram em uma só organização, a Emancipação Socialista. Não deixe de ler o nosso Manifesto!

Jornal 86: China expressa os sinais de uma crise que é estrutural


12 de Fevereiro de 2016

O fantasma da crise…

Em 2015, o crescimento da China ficou em 6,8% face ao ano anterior, o mais baixo desde 1990. (http://observador.pt/2016/01/19).

Mas primeiro devemos notar que estes são os dados oficiais do governo. Indicadores como as vendas no varejo e o consumo de eletricidade apontam para uma desaceleração maior. Esse índice também é fruto de várias intervenções do governo Chinês injetando dinheiro desde que tem havido quedas na Bolsa.

Além disso, o êxodo constante da população rural para as cidades, o acúmulo dos problemas e da desigualdade em um país com 1,4 bilhão de pessoas, e em que mais da metade é composta de operários precarizados faz com que as preocupações aumentem.

Assim, 2016 começou com três quedas que fizeram travar as operações na Bolsa de Pequim (o sistema desarma quando a queda atinge – 7%) e cair as bolsas em todo o mundo. E se a situação continuar se agravando?

Modelo pautado na superexploração e dependente dos países centrais

Durante as últimas décadas, os diferenciais da China eram: uma mão de obra com níveis de exploração altíssimos, seja pelas condições subumanas de trabalho como pelos salários baixíssimos. Como resquícios da revolução de 1949, o Estado ainda provia os serviços básicos mínimos como saúde, educação, alimentação, as empresas podiam se instalar em zonas especiais e assim pagar salários baixíssimos e exigir jornadas extenuantes de trabalho. O ganho salarial mínimo e um estado altamente repressor (também desenvolvido anteriormente sob o falso rótulo de socialismo) mantinha a mão de obra sob controle.

Assim, milhares de grandes corporações instalaram empresas na China, exportando para o restante do mundo. Deu-se origem à bolha das chamadas commodities (matérias primas), pois o mercado financeiro disseminou e potencializou as tendências de aumento dos preços, beneficiando às burguesias dos países periféricos e abrindo algumas margens para os chamados projetos chavistas.

Até a eclosão de 2008, o destino das exportações da China era principalmente os países centrais, cujas burguesias transferiam fábricas para a China (baixando violentamente seus custos e obtendo superlucros). Ao mesmo tempo, utilizavam esse mecanismo (ameaça de mudança para a China) para pressionar os trabalhadores dos países centrais a aceitarem redução de direitos, arrocho salarial e desemprego, em nome da “competitividade”.

Com o crescimento das exportações da China, sobravam divisas que o estado ia utilizando para construir mais obras de infraestrutura. Outra parte ia para o surgimento de uma burguesia e de uma classe média chinesas a partir da conversão de setores da burocracia do PC e/ou de máfias que já existiam.

A China exportando a um ritmo alucinante consumia uma grande quantidade de matérias primas, colocando uma demanda nova para os países produtores de matérias primas, que por um período de 15 anos beneficiou as exportações brasileiras, mas basicamente toda a América Latina, Africa do Sul, etc.

Esse equilíbrio obviamente problemático durou um tempo, pois nos países centrais havia uma grande oferta de crédito, capital que não compensava ser investido na produção nesses países e que foi então direcionado como fundos de crédito para o superendividamento da classe média e dos trabalhadores dos países centrais.

Estoura a crise de 2008. O Estado chinês redobra a aposta

Mas o aumento da tecnologia e das capacidades produtivas instaladas no mundo (que agora incluía a China) foi levando a um aumento da oferta, enquanto do outro lado houve o esgotamento do potencial de consumo devido ao limite do superendividamento das famílias dos países centrais. Houve a explosão da crise mundial em 2008.

Portanto, a crise de 2008 não foi de modo algum uma crise financeira. Essa era apenas sua aparência. Por detrás havia a crise de superprodução de capitais e de capacidade instalada que não encontrava mercados suficientes para serem escoadas com lucro.

A partir de então, todos sabemos: os estados nacionais despejaram cifras astronômicas para salvar os grandes bancos e corporações (entre 12 a 15 trilhões de dólares!). Isso levou ao endividamento dos mesmos e ao mesmo tempo à superemissão de dólares, euros e ienes, utilizados para pagar dívidas, importações e serviços, indo parar nas mãos dos países como Brasil, China, Rússia, Índia e muitos outros.

Foi criado o G-20, cuja função era comprometer os países chamados intermediários com saídas para a crise que beneficiassem os países centrais dos quais eram dependentes pelo mercado. Os países intermediários deveriam abrir ainda mais seus mercados para o consumo de produtos dos países centrais (via crédito) e para os capitais privados (aquisição de Títulos da Dívida Pública, várias formas de privatização como concessões, etc.).

Com o esgotamento do endividamento das classes médias e dos trabalhadores dos países centrais, e com o endividamento dos respectivos estados nacionais, a palavra de ordem passou a ser Austeridade.

Visando se tornarem mais competitivas, as empresas dos países centrais se reestruturaram – como a GM –, fecharam ou reestruturaram suas fábricas, diminuindo seus custos.

A queda nos ritmos do mercado mundial e a reestruturação das empresas dos países centrais provocaram a queda do ritmo de crescimento da China.

Mas então o estado chinês entrou impulsionando a economia com investimentos em obras de infraestrutura, portos, usinas, aeroportos e até cidades, em busca de criar as melhores condições para tornar a China mais atrativa para as empresas.

No entanto, dada a redução do ritmo de crescimento global pós 2008, o investimento estatal chinês teve um efeito paliativo. Sua manutenção tem provocado um endividamento cada vez maior do estado, difícil de se sustentar. E mesmo assim, as empresas resistem em fazer novos investimentos para aumento de produção na China.

Mais do que isso, tem havido uma tendência de as empresas deixarem a China. Uma em cada quatro empresas norte-americanas com negócios na China encerrou parte das suas operações no país, ou irá fazê-lo, num período em que a segunda maior economia mundial cresce ao ritmo mais baixo dos últimos 25 anos. (http://observador.pt/2016/01/20).

Entre as empresas que deslocaram as suas operações, quase metade optou por outros países asiáticos, enquanto 38% escolheu a América do Norte. Ou seja, o capital busca condições de maior superexploração em outros países e parte do capital retorna aos países centrais.

O esgotamento do modelo exportador. E agora?

Assim, todos os debates passaram a ser sobre como incentivar um novo modelo mais voltado para o consumo interno e para o setor se serviços. De fato, pela primeira vez, em 2015, o setor de serviços representou 50,5% do crescimento do produto interno bruto (PIB), ligeiramente à frente da indústria e agricultura. (http://observador.pt/2016/01/19).

Mas essa transição para uma economia mais voltada para o mercado interno é muito incerta, lenta e problemática. Dependeria de um afluxo de capitais que apostasse no endividamento de grande parte da população chinesa, a exemplo do que houve no Brasil a partir de 2009 até 2014.

Mesmo que isso ocorra, não conseguirá suprir as perdas pela diminuição das exportações chinesas em lento crescimento devido à situação da economia mundial.

Em segundo lugar, assim como aconteceu no Brasil, um ciclo de superendividamento na China tende a ser muito mais curto que o dos países centrais, repondo então com muito mais intensidade todos os problemas estruturais.

A classe trabalhadora chinesa com baixíssimos salários tem um potencial de endividamento que não se compara com o que ocorreu nos países centrais.

Assim, mesmo que a China ainda preserve certo crescimento, não voltará mais ao ritmo anterior, e o principal responsável por isso é que a economia mundial como um todo deve se manter em lento crescimento ou mesmo estagnação. Ou seja, as dificuldades da China na verdade revelam a crise estrutural do capital.

O despertar da classe operária chinesa

Na China, os trabalhadores só têm direito à greve se for organizada pela Federação Chinesa de Sindicatos (ACFTU na sigla em inglês); basicamente uma burocracia que atua como braço do governo e que não defende os trabalhadores. A prisão de ativistas independentes é prática nos protestos, havendo também o recurso a capangas e para atacar e desmobilizar os piquetes de greve dos trabalhadores.

Mesmo assim, as greves têm dado um salto de quantidade e muitas se organizam de forma independente. A intensificação da exploração, que já é altíssima, só pode aumentar a temperatura desse caldeirão.
O ativismo trabalhista está se ampliando na classe operária, que abrange mais da metade dos 1,4 bilhão de chineses.

Consequências e desafios para o Brasil e a América Latina

De imediato, portanto, as consequências são o fim do boom das commodities com a queda espetacular do barril do petróleo a menos de 30 dólares (já esteve a 120); a queda das demais matérias primas como minérios, etc.; ao mesmo tempo o enfraquecimento das moedas dos países periféricos frente aos países centrais, encarecendo a importações; e como decorrência, o salto no aperto da vida dos trabalhadores.

A polarização social e política mina as bases dos projetos “reformistas” como o PT, assim como os projetos chavistas. Os setores de direita se apresentam mais abertamente na disputa pelas alternativas de projetos de sociedade, e buscam ganhar legitimação perante as massas.

Mas a classe trabalhadora e os setores populares e camponeses aumentam e radicalizam suas lutas, o que desperta novas energias, principalmente com a juventude.

Os desafios para a esquerda revolucionária aumentam, pois todo esse processo ainda é marcado por uma aprofunda crise de alternativas socialistas. No entanto, novas experiências estão se gestando, seja em organizações de base nos locais de trabalho, moradia e estudo, seja em frentes para lutar, seja nos debates e o início de uma consciência anticapitalista pelo menos entre as vanguardas.

Assim, o desafio cada vez mais urgente passa a ser construirmos juntos as lutas e como parte delas a consciência, programa, e as formas de organização socialistas e revolucionárias.