Extrapolar os limites da luta sindical – Nota de apoio à chapa 1 para o Sindicato dos Bancários de Bauru


10 de janeiro de 2016

bandeiraAs eleições para o sindicato dos bancários de Bauru se colocam no marco do fim de mais de uma década de derrotas dos trabalhadores e de seus símbolos de luta contra a exploração. O resultado das diversas experiências colocadas dentro do campo socialista durante o século XX foi devastador. A história da luta dos trabalhadores nas últimas décadas deixou como resultado uma grande perda na correlação de forças frente aos patrões, que nos impôs derrotas significativas, como as reestruturações produtivas, o consequente rebaixamento dos postos de trabalho, as privatizações, a ampliação da terceirização e as diversas retiradas de direitos. Tivemos também um retrocesso na consciência dos trabalhadores. Hoje a nossa classe sequer se reconhece como única responsável pela produção de toda a riqueza do mundo. Somos. E por sermos, somos também o único setor da sociedade que tem a legitimidade para escolher os rumos que a sociedade deve tomar para levar a humanidade a uma emancipação de fato. Mas não controlamos hoje a sociedade, nos submetemos à classe patronal. O não reconhecimento de toda essa realidade estreita os horizontes da sociedade de conjunto, e, dentro disso, do movimento dos trabalhadores. Assim, é frequente a negação das ferramentas de luta da classe trabalhadora, como os partidos socialistas, mesmo que independentes dos patrões, as organizações políticas e até os sindicatos.

“O homem faz a sua História a partir de condições dadas”

Nesse contexto de não reconhecimento, não é pouco importante com qual entendimento o movimento dos trabalhadores se organiza ou deixa de se organizar para tocar a luta por condições de trabalho, uma luta imediata, que visa resolver problemas colocados para hoje, luta que chamamos também de econômica. Toda luta econômica em si mesma tem um limite muito estreito. Pouco adianta lutarmos por reposição salarial ou para que nossa realidade nos bancos e departamentos seja um pouco menos insuportável se não lutarmos contra a lógica fundadora desses problemas. As lutas imediatas têm a sua importância, afinal os problemas de hoje estão colocados para hoje. Mas se não formos capazes de colocar essas lutas a serviço de uma estratégia maior, que ataque o problema pela raíz, passaremos nossas vidas a enxugar gelo. Basta notarmos que a cada vitória dos trabalhadores no campo econômico, mais cedo ou mais tarde, é retomada pela patronal e seus governos, que se rearticulam para reaver o controle do campo em que conseguimos com muita luta avançar. Cada vez que conseguimos um reajuste salarial um pouco melhor, que conseguimos barrar um processo de fechamento de escolas, um aumento da tarifa do transporte público, barra o avanço de um projeto de lei, no ano seguinte novos ataques são colocados e lá estamos nós novamente, reconstruindo do zero a nossa luta. A luta sindical, por ser luta econômica, é, portanto, essencialmente defensiva, é reativa. Não agimos, mas reagimos aos ataques dos patrões e governos às nossas condições já massacrantes de trabalho. Se avançamos, é dentro do horizonte estreito do jogo que está colocado para nós: vender nossa força de trabalho da forma menos desvantajosa possível para os nossos patrões, que buscam compra-la da forma mais vantajosa que conseguirem. Por isso se chama luta de classes. O sindicalismo se insere nessa realidade já dada e dentro de seus limites já colocados.

A necessidade de extrapolar os limites da luta sindical

O sindicalismo, portanto, se olhado em sua essência, não combate, mas de certa forma legitima essa ordem social existente, em que o imperativo é a venda da força de trabalho. O sindicalismo trabalha a partir da existência de exploradores e explorados e não de sua negação. Este é seu principal limite.
Não se trata aqui de negar a importância da luta sindical, mas de entender a sua essência e o papel que lhe cabe na história. No sindicalismo cabe, por exemplo, o papel de defesa da patronal, muitas vezes não declaradamente, mas simplesmente atuando de forma a conter as lutas, dando vantagem aos patrões, como vemos hoje país afora nas nossas greves fazer a CUT, ou em outras categorias a Força Sindical, a CTB e diversas outras forças auxiliares da patronal. O sindicalismo, em si mesmo, portanto, não é necessariamente revolucionário. A incorporação dos sindicatos à estrutura do Estado, concretizada a partir de Getúlio Vargas, é uma grande prova disso e agrava essa natureza já limitada do movimento sindical. Partir desses pressupostos é importante para não nos perdemos na dinâmica incessante da roda que tende a girar até o infinito, do nada a lugar nenhum, a luta sindical.
É partindo daí que nos situamos dentro do campo do movimento que só vê solução para os problemas dos trabalhadores extrapolando os limites dessa dinâmica. Para nós, o movimento sindical só serve aos trabalhadores quando se conforma como uma de várias das ferramentas de luta contra a ordem capitalista. Queremos o fim dessa lógica, queremos o fim da exploração, o fim do trabalho assalariado, o fim dos patrões e com o fim das diferenças de classe social acabará também a necessidade da existência dos próprios sindicatos. A luta sindical não responde às necessidades dos trabalhadores de conjunto, junto com tudo o que compõe essa sociedade do lucro precisa também um dia ser superada. Queremos nos organizar para que os trabalhadores tomem o rumo da sociedade nas mãos, para construir uma sociedade muito superior a essa, em que prevaleçam as necessidades humanas e não o lucro, uma sociedade socialista. Nessa luta, o movimento sindical pode vir a ser uma ferramenta, mas pode também ser um obstáculo.

Uma ferramenta de luta dos trabalhadores rumo a sua emancipação

Entender o movimento sindical como uma atuação dentro desses estreitos limites da luta pelas demandas imediatas dos trabalhadores e entender o movimento sindical como algo muito além disso imprime a ele potenciais diversos. Não reivindicamos, portanto, um movimento sindical que se perca na luta pelas pautas dessa ou daquela categoria, que fique preso a o que determinam os calendários institucionais, às suas campanhas salariais e ao calendário das eleições sindicais. Não defendemos esse sindicalismo exatamente pelo fato de que essa rotina em si mesma não oferece perspectiva nenhuma de rompimento com a lógica de exploração.
A existência dessa visão mais totalizante que coloque a luta dentro da perspectiva da revolução socialista é para nós, portanto, um dos pressupostos para que a atuação em qualquer movimento não se perca nas armadilhas da patronal.
Nesse sentido, não só defendemos e achamos legitimo, mas sobretudo julgamos fundamental que existam ativistas, militantes, organizações e inclusive partidos que reivindiquem o socialismo e a independência de classe atuando como direção do movimento dos trabalhadores. Qualquer setor do movimento que queira defender os interesses dos trabalhadores às últimas consequências precisa alcançar essa visão totalizante da realidade. A melhor e mais honesta das intenções, sem uma visão mais totalizante da luta sindical, tende a ser aos poucos absorvida pela lógica do sindicalismo. O destino é ser neutralizado ou incorporado à sua estrutura por meio do afastamento do trabalho e de seus esperados vícios burocráticos.

Para além da aparência, uma essência revolucionária

Os sindicatos hoje são tão atrelados à estrutura da sociedade de classes que mesmo que suas direções tenham os pés fincados na luta pelo socialismo não existe garantia alguma de que sua atuação estará isenta de cair nas armadilhas dessa rotina.
Ter um programa que defenda o socialismo e as bandeiras de luta históricas do socialismo não garante uma atuação de fato revolucionária. De nada adianta ter essas bandeiras e sustentar uma visão do socialismo que na prática leva a uma atuação oportunista, que prioriza a construção do partido ou organização mesmo que para isso seja preciso sacrificar o movimento dos trabalhadores. De nada adianta ter um belo programa sem praticar o respeito pelas instâncias de base do movimento, colocando as reuniões do movimento à serviço da aprovação da linha dos partidos e organizações e de seus calendários. De nada adianta ter um programa socialista sem um trabalho de base real junto aos bancários, desviando o tempo de liberação de seus dirigentes e a estrutura sindical para construção do partido ou organização. Da mesma forma que uma atuação que não tenha a revolução socialista como objetivo maior tem como destino se adaptar à lógica sindical, reivindicar um programa socialista não garante uma atuação revolucionária. São duas faces da mesma moeda.
São muitos os motivos que levam partidos socialistas a aparalherarem o movimento, e têm raízes profundas que vão muito além de um debate moral. O Espaço Socialista é reconhecido não só pelo acúmulo neste debate contra a aparelhamento e a burocratização do movimento dos trabalhadores, mas também pela sua prática de não apararelharem os sindicatos em que participa da direção. Não usufruímos de privilégios e de nenhuma diferenciação com a categoria, como afastamentos, somente ajudas de custo. Entendemos, porém, que a burocratização não é um problema moral, mas material e que o aparelhamento é a consequência da aplicação de uma concepção de movimento da qual não partilhamos. Sendo assim, não nos interessa limitar o debate a qual o setor mais ou menos burocratizado do movimento, para escolhermos o menos pior. Mas debater qual o setor do movimento que tem o maior potencial de contribuir enquanto direção para impulsionar o movimento sindical a superar seus limites e ser realmente ferramenta de luta para a emancipação da classe rumo a uma sociedade socialista.

A FNOB e seu potencial de luta

Os limites estão colocados para o movimento dos trabalhadores de conjunto, e não nos colocamos fora dele. Dentro da FNOB não é de hoje que colocamos o debate da necessidade de extrapolar os manuais. Já debatemos em seus encontros nacionais por diversas vezes a necessidade de se avançar para além do corporativismo, lutando pela classe trabalhadora de conjunto. Iniciamos o debate sobre o burocratismo e tivemos longos debates sobre o eleitoralismo, que afeta todos os setores do movimento.
Não disputar os fóruns da CONTRAF-CUT é para nós uma tática que responde a toda uma trajetória do movimento nacional bancário no último período. Estar fora do MNOB (movimento nacional de oposição bancária, hegemonizado pelo pstu) é resultado igualmente da avaliação que se faz da trajetória desse movimento e da conduta aparelhista de sua direção e não tem nada a ver com promover o sectarismo ou dividir a oposição. Porém, essas opções politicas não nos garantem uma atuação que extrapole os limites do sindicalismo.
Nós do Espaço Socialista construímos hoje a FNOB por acreditar que ela representa a melhor ferramenta nacional de construção de uma atuação que negue parte importante daquilo que não contribui para um movimento de horizonte revolucionário na categoria bancária. A FNOB tem muitos limites e muito o que avançar, mas opera hoje em uma lógica diferente por exemplo do MNOB. A FNOB não é uma correia de transmissão da política de nenhuma organização ou partido. Além disso, afirmamos com toda a tranquilidade que a FNOB tem espaço e democracia suficientes hoje para que em seu interior atuem tanto ativistas independentes, quanto partidos e organizações políticas, como nós, que busquem a construção do movimento, sem que nenhum setor tenha que se subordinar à imposição desta ou daquela política.
A FNOB não está isenta de reproduzir os limites do movimento de conjunto e de sofrer com as dificuldades que impõe hoje a realidade do movimento sindical no país, precisa avançar em diversos debates já colocados em seus fóruns e também nessa nota, assim como todos que se colocam como lutadores precisam, inclusive nós. Porém, a FNOB representa hoje do nosso ponto de vista o que de melhor existe no movimento bancário nacional e a reivindicamos como alternativa nacional de organização no movimento para a categoria.

A Chapa 1 reflete o que de melhor tem o movimento bancário

Apoiamos de forma crítica a chapa 1 por enxergarmos em seus membros o mesmo potencial que enxergamos na FNOB. Os companheiros de Bauru que formaram a chapa 1 têm amplo trabalho na base da categoria, que se provou pela exemplar paralisação quase total das agências do Banco do Brasil na cidade na última greve, chamando atenção do movimento bancário nacionalmente. A atuação dos camaradas da chapa 1 é reconhecidamente forte na região em defesa dos interesses dos trabalhadores bancários não só no período das campanhas salarias. Um dos motivos que nos fez romper com o MNOB, dirigido pelo PSTU, mesma força que compõe hoje a maioria da chapa 2 é a utilização do movimento somente nos momentos que interessa ao partido. Os fóruns do movimento devem ter reuniões permanentes, ser organismos vivos, e não serem chamados a reunir somente em momentos em que se quer eleger delegados para congressos ou ter maior base para a aplicação de uma política do partido. Em São Paulo, atuamos no Avante Bancários junto a outras forças politicas, por esse e outros motivos, com a permanente batalha para que ela seja uma frente permanente, orgânica, e não uma marionete de nenhuma organização ou partido.
Apesar das semelhanças que nos unem em muitos momentos na luta de classes, as diferenças que nos separam do PSTU em diversos outros momentos nas frentes de atuação são concretas e não mero divisionismo. Apesar da chapa 2 ser formada em sua maioria por membros de um partido que reivindica o socialismo (PSTU), não enxergamos em sua atuação prática um exemplo da relação que um partido deve ter com o movimento dos trabalhadores.
A chapa 1, apesar de composta por companheiros independentes, mesmo com seus limites, apresenta hoje maior potencial para dirigir o movimento bancário em Bauru do que a chapa 2, pelos limites que o PSTU apresenta não só em Bauru, mas em todo o país.
Construímos hoje a CSP- Conlutas junto aos camaradas dos PSTU, mas em seu interior nos diferenciamos compondo um bloco de oposição, construído também pelos camaradas da FNOB de Bauru, exatamente porque existem importantes diferenças. Os companheiros da chapa 1 seguem ao nosso lado nessa trajetória a na batalha para que o movimento dos trabalhadores avance. A chapa dos membros da FNOB se mostra aberta às discussões que insistimos em pautar nos fóruns do movimento, apresentando um potencial de avanço para a superação de seus limites. O sindicato dos bancários de Bauru precisa de uma direção aberta a estes desafios que estão colocados para a classe trabalhadora de conjunto e com trabalho e inserção real junto a base dos bancários, por isso, chamamos os bancários a apoiar a chapa 1 nessas eleições.

Espaço Socialista,  11 de Janeiro de 2016.